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      Crises de ansiedade entre cantores chamam atenção para o transtorno

      12 de setembro de 2016 11:36 Por Damy Coelho

      Camila Cabello e Zayn: shows interrompidos e cancelados por conta da ansiedade (Foto: Reprodução/Revista Self)

      Recentemente, notícias de estafa e crises emocionais envolvendo cantores pop vêm chamando atenção para um transtorno específico: a ansiedade. Em menos de quinze dias, Zayn cancelou um show em Dubai; Camila Cabello precisou sair do palco no meio de um show do Fifth Harmony e Selena Gomez anunciou que cancelou a sua agenda de turnê até o final do ano. Todos alegando o mesmo transtorno: a ansiedade. Mas, por que a ansiedade vem se tornando tão recorrente no meio musical?

      “O relato crescente de sintomas ansiosos e depressivos em ícones da música é interessante porque, para mim, representa uma tendência generalizável para o resto da sociedade”, afirma Isabela Sallum, psicóloga e mestre em medicina molecular pela UFMG. Fora o caso de Selena Gomez – cujos sintomas de ansiedade advém da Lupus, ou seja, é um caso isolado – cantores como Zayn e Camila Cabello podem estar sofrendo de um mal que é mais recorrente em nosso dia a dia do que muitos imaginam.

      Claro, o fato de esses dois jovens serem pessoas tão famosas pode sim, influenciar no processo da ansiedade. A psicóloga enumera três possíveis razões que apontam aspectos específicos na profissão desses cantores que podem desencadear essas crises:

      1) Níveis altos de pressão e cobranças para pessoas tão jovens

      Zayn tem 23 anos (contando seis de carreira, desde quando entrou no One Direction). Com 19 anos, Camila é uma das caçulas do Fifth Harmony. Demi Lovato – que hoje dá seu depoimento em palestras e eventos sobre transtornos mentais – sofreu com a ansiedade e a depressão no início da carreira, quando ainda nem tinha completado 18 anos. Mais tarde, a cantora foi diagnosticada com transtorno bipolar chegou até a visitar a rehab algumas vezes, para tratar esses sintomas.

      A idade precoce chama a atenção: são cantores e cantoras extremamente jovens, que desde muito novos já lidam com a pressão que vai da falta de tempo para a família e para atividades de lazer com os amigos até os longos períodos de solidão na vida da estrada. Sem contar a enorme influência que esses artistas exercem: tão novos e já são ídolos de pessoas ainda mais novas que eles. Pronto: toda essa pressão pode ser uma causa direta do transtorno.

      “O nível de pressão e responsabilidade que esses artistas têm sendo ainda tão jovens é preocupante. Um dos sintomas principais que caracterizam a ansiedade é a preocupação constante com várias coisas diferentes. Por mais que avaliemos a vida desses artistas como fácil– afinal, é isso que parece quando os acompanhamos no Instagram –, certamente a quantidade de atividades com que cada um tem que se engajar é enorme. Tomando como base a ideia atual de que todo mundo ter que ser um artista completo – saber cantar, atuar, dançar, entreter, etc –, a pressão para conseguir administrar tudo isso é muito grande. Esse aspecto é comum em outros trabalhos, claro, mas o que é espantoso, ao meu ver, é isso ser exigido de pessoas tão jovens”, afirma a psicóloga.

      Demi: a cantora já sofreu com sintomas de ansiedade e, hoje, é porta-voz no esclarecimento sobre a doença (Foto: Reprodução)

      2) Alvos constantes de críticas (boas ou ruins)

      Ninguém gosta de ser alvo de haters, né? Os famosos precisam lidar com um monte deles, todos os dias. A maioria diz que prefere ignorar, mas não é fácil fechar os olhos quando o mundo todo parece estar falando sobre a sua vida – principalmente quando acontece alguma polêmica, o que é um prato cheio para os sites de celebridades, mas um tormento para quem protagoniza momentos mais tensos.

      “Um aspecto importante associado à depressão é a autoavaliação negativa e o sentimento de menos valia. Acontece que nossas opiniões sobre nós mesmos são dependentes também de como os outros nos veem. Imagine que você gosta muito de alguém, e essa pessoa às vezes te elogia muito, e outras vezes te trata mal. Isso gera uma sensação de incerteza contínua sobre qual será a próxima resposta da pessoa, e eleva o grau de ansiedade. E é isso o que acontece – em uma escala muito maior – com a relação entre celebridades e mídias sociais. Tudo isso é muito grande. Esse aspecto é comum em outros trabalhos, claro, mas o que é espantoso, ao meu ver, é isso ser exigido de pessoas tão jovens”, afirma Isabela.

      Vale lembrar que, recentemente, Selena Gomez trocou comentários nada amistosos no Instagram com Justin Bieber. Pegamos esse exemplo para ilustrar uma situação típica nesse meio: o que poderia ser uma “alfinetada” comum entre ex-namorados toma dimensões gigantescas quando se tratam de dois nomes tão famosos. Imagina só se uma discussão qualquer entre você e seu (sua) namorado (a) fosse acompanhada por milhões de pessoas que você nem conhece? A psicóloga concorda: “Além do Lupus, pode ser, sim, que uma das causas que desencadeou os sintomas depressivos de Selena tenha a ver também com essa situação em específico”.

      O próprio Justin Bieber não chegou a alegar problemas com ansiedade, mas seu comportamento instável, ao deletar e retomar contas nas redes sociais e cancelar o meet & greet alegando que se sente com a energia ‘pesada’ ao entrar em contato íntimo com tantas pessoas, remete a esse tipo de fenômeno entre as celebridades.

      3) Comportamentos de risco que são potencializados no universo das celebridades

      Pode parecer que o assunto aqui é o uso de drogas, mas, apesar de esse ser um grande desencadeador desses sintomas, não é o assunto a ser tratado aqui. “Uma das grandes dificuldades em se fazer o diagnóstico de um transtorno mental é o fato de que os transtornos mentais com frequência são exacerbações de comportamentos e emoções normais que temos no dia a dia”, afirma a psicóloga.

      Claro que isso vale para outras profissões. Porém, analisando o universo desses cantores, é possível compor um cenário específico. “Por exemplo, ficar triste é algo comum, mas ficar muito triste com frequência, na maior parte dos dias, quase todos os dias, por pelo menos duas semanas, pode ser sinal de depressão. O que acontece é que alguns comportamentos que podem gerar desfechos de saúde negativos podem ser funcionais em outros aspectos. Por exemplo, uma pessoa extremamente obcecada e perfeccionista pode produzir uma música incrível, mas o efeito disso na saúde pode ser negativo”, explica Isabela Sallum.

      Precisamos falar sobre isso

      Como dá para perceber, a ansiedade pode ser mais comum do que a gente imagina, mas é coisa séria. Tanto que setembro foi escolhido como o “Mês Amarelo”, que chama a atenção para a valorização da vida e ajuda a esclarecer sobre distúrbios como a ansiedade. “Acho que os artistas estarem falando sobre isso reflete também uma tendência da sociedade em aceitar mais a discussão sobre os transtornos mentais. Cada vez mais fica claro que Depressão e Ansiedade não são frescura, são problemas reais que devem ser tratados com profissionais preparados para tal”, afirma a psicóloga.

       

      Para saber mais sobre o Setembro Amarelo, acesse o site oficial da campanha. Se você tem ou conhece alguém que sofre de transtornos de ansiedade e depressão, conheça também o trabalho do Centro de Valorização da Vida (CVV).