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      A ascensão (já esperada) de Pabllo Vittar

      11 de agosto de 2017 18:04 Por Damy Coelho

      Vittar, Anitta e Diplo são estrelas do clipe de ‘Sua Cara’, gravado no Marrocos (Foto: Reprodução/Instagram)

      Como diria o meme de tempos atrás, o blogueiro norte-americano Perez Hilton “errou feio, errou rude” ao ignorar o nome da cantora e drag queen Pabllo Vittar quando anunciou o clipe de Sua Cara - música de Major Lazer com parceria de Vittar e Anitta.

      Pabllo Vittar (Foto: Reprodução/Instagram)

      O blogueiro – que parece estar desesperado por atenção desde quando seu nome começou a ficar ultrapassado – afirmou ter ignorado de propósito o nome de Pabllo ao anunciar o clipe em seu Twitter. “Ninguém conhece Pabllo Vittar na América”, soltou.

      Minutos depois, ele já estava sendo rechaçado pelo próprio do do clipe, o DJ e produtor Diplo, e pelos milhares de fãs brasileiros de Pabllo Vittar. Os fãs apontavam, inclusive, que a drag brasileira tem muito mais seguidores nas redes sociais que o próprio Perez Hilton. O fandom de Vittar é forte e fiel, sempre compartilhando cada notícia que sai sobre o ídolo – e defendendo-o quando é necessário.

      Felizmente, salvo um ou dois jornalistas mais desinformados, Pabllo Vittar vem ganhando cada vez mais destaque na imprensa. O seu sucesso chamou a atenção da Sony, uma das maiores gravadoras do país, que já chamou a cantora para ser uma de suas estrelas.

      E o fato de alguns a ignorarem só faz com que a cantora siga mais forte: 24 horas depois do lançamento do clipe de  Sua Cara  – e depois de Perez Hilton passar vergonha em nível internacional – já haviam dezenas de matérias, nacionais e internacionais, sobre a brasileira (ou: a drag queen mais influente da cultura pop nos últimos tempos).

      Sua Cara leva Pabllo Vittar ao mercado internacional

      Sua Cara é o single mais forte do EP do projeto Major Lazer (do famoso produtor  Diplo). Pesquisador assíduo de música brasileira e de olho na força que o Brasil exerce na internet, Diplo convidou Anitta e Pabllo Vittar para o single. Anitta, a cantora mais representativa do Brasil atualmente (quer você goste, ou não) virou amiga pessoal de Diplo na passagem do produtor pelo Brasil.

      Pabllo Vittar chamou a atenção do produtor ao lançar sua versão para um sucesso do Major Lazer, Lean On. Na versão de Vittar, a música virou Open Bar e foi “turbinada” com ritmos bem brasileiros, com uma pitada de axé de de samba.

      A música chamou a atenção de Diplo: o produtor recomendou Vittar para os fãs e ainda guardou o nome da drag queen para uma futura parceria que ele queria fazer, de olho no Brasil. O resultado foi justamente a música Sua Cara e seu sucesso absoluto.

      O clipe já estreou com números estrondosos, provando ainda mais a força do Brasil na internet.

      Em 24 horas, o clipe já somava 25 milhões de visualizações e ainda lidera a lista das 50 músicas mais ouvidas no Spotify Brasil. De fato, a música Sua Cara foi a grande ascensão de Pabllo Vittar para o mercado internacional.

      A artista já ganhou um perfil na Billboard neste ano (Foto: Reprodução)

      Mas a cantora já quebrava recordes por aqui muito antes do clipe de Sua Cara estrear.

      Em ascensão

      Para quem não sabe, Pabllo Vittar é o nome artístico do jovem maranhense Phabullo Rodrigues da Silva, de origem humilde e apenas 22 anos. Seu caminho até a fama não foi fácil – além de lidar com o preconceito por sua condição de homem gay que se monta como drag queen, a vida do artista foi marcado por muito trabalho. Ele começou cedo a ajudar a família, trabalhando em salões de beleza e lanchonetes, segundo reportagem especial do jornal O Globo.

      A fama veio mesmo com Open Bar, em 2015, seguido do sucesso da música Todo Dia, com Rico Dalasam- essa virou o grande hit do Carnaval 2017, somando 50 milhões de acessos no Youtube.

      Mas foi seu hit K.O, lançado neste ano, que catapultou a carreira de Vittar, fazendo a cantora sair do nicho LGBT e ganhar a admiração de diversos artistas brasileiros. Lucas Lucco, Daniela Mercury, Marília Mendonça, Ivete Sangalo e a própria Anitta são alguns dos fãs assumidos da cantora. Preta Gil quis fazer um dueto com a drag. Fernanda Lima é tão fã, que chamou Pabllo Vittar para cantar na banda do programa Amor e Sexo no lugar de Leo Jaime no ano passado. E Vittar tirou de letra a missão, como vem tirando em todas as missões que a vêm levando ao estrelato em menos de dois anos.

      Jornal destaca a ascensão de Vittar (Foto: Reprodução/Extra)

       

      Pabllo Vittar é um exemplo de artista que, para além de ter talento e tino de mercado, conta com a sorte de ter despontado na hora certa. Assim como Anitta, que abocanhou o título de “rainha do pop brasileiro” quando este mercado estava capengando de ídolos.

      Pabllo Vittar representa a identidade de gênero no pop, em um momento em que o universo drag nunca esteve tão cool.

      Pabllo Vittar: os números da rápida ascensão da artista

      RuPaul’s who?!

      Parte desse sucesso do mundo queer vem do seriado RuPaul’s Drag Race, que já conta com nove temporadas e é sucesso absoluto em vários países – inclusive no Brasil. Festas que tematizam as batalhas de lip lymp sync bem ao estilo do programa são a grande tendência atual – e as músicas de Pabllo Vittar não podem faltar nas versões brasileiras da balada.

      O sucesso dePabllo Vittar é tão astronômico que a jovem já ultrapassou a própria RuPauls no título de drag queen mais influente nas redes sociais em todo o mundo. Enquanto Vittar soma impressionantes 2,5 milhões de seguidores no Instagram, por exemplo, RuPauls fica em segundo com quase metade deste número.

       

      Fã responde ao blogueiro Perez Hilton quem é a drag com mais seguidores no mundo (Foto: Reprodução/Twitter)

       

      No Spotify, Pabllo Vittar abocanha duas das três primeiras posições das músicas mais ouvidas no Brasil: Sua Cara é o primeiro lugar, enquanto K.O segue favoritinha entre os ouvintes, assumindo o terceiro lugar.

      Cantore!

      Apesar de fãs e imprensa usarem o artigo feminino para se referir a ela (é “montada” que ela se apresenta artisticamente), Pabllo se intitula como um homem gay e não se incomoda em ser chamado de “ele” ou “ela”. “Sou gay e amo o meu corpo, não tenho problemas com identidade de gênero. Só me sinto mulher quando estou montada!”, revela.

      Outros artistas que seguem a mesma linha de pensamento e aparecem bem cotadas nos streamings são Liniker e Johnny Hooker. São cantores assumidamente homossexuais que se apresentam “montados” em apresentações que encantam pela performance, com influência direta da época do Secos & Molhados.

      E, assim, como Pabllo, eles não querem que o gênero defina sua música. “Meu corpo é político”, brada Liniker quando tentam classificar o seu gênero. “Estar no palco desta maneira numa sociedade ainda tão opressora é um ato político. Ali, eu me empodero e tenho a chance de afirmar que vai, sim, ter bicha preta de saia, batom e feliz”, revela o cantor. O próprio resolveu o problema com os substantivos de gênero: nem cantor, nem cantora, prefira chamá-los de cantores.

      Liniker (Foto: Divulgação)

      Mas não é só o sucesso de RuPaul’s que favorece o cenário para Pabllo Vittar. Artistas como esses despontam em uma época de rechaço político no Brasil, em que conservadores batem de frente com as minorias. Em um movimento parecido como o que rolou nos anos 70, justamente com os Secos & Molhados, esses artistas que representam as minorias vêm ganhando cada vez mais representatividade cultural. E, diferente da época da ditadura, essas vozes vindas das minorias nunca foram tão ouvidas como agora.

      O sucesso de Pabllo Vittar abre o mercado para outras drags que vêm chamando a atenção no mundo pop, como as (também brasileiras) Lia Clark e Gloria Groove. As duas são contemporâneas de Vittar – se lançaram no mercado há menos de três anos – e já contam com uma legião de fãs. Se depender de todxs elxs, a música pop tem tudo para se reinventar ainda mais, provando que a música, assim como toda arte, é um reflexo de sua contemporaneidade. Em tempos de diversidade, não há nada mais novo e representativo do que Pabllo Vittar.