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      Despacito em português cria muros culturais e não pontes

      14 de agosto de 2017 13:39 Por Gustavo Morais

      Figurando nas paradas de sucesso, playlists e pistas de danças, a versão original da música Despacito, cantada por Luis Fonsi e Daddy Yankee, é “A” faixa que recolocou a pluralidade da música latina em evidência no mundo inteiro. A menos que aconteça um novo fenômeno radiofônico, dificilmente a canção – cujo refrão é cantado por pessoas de 8 a 80 anos – deixará de ser a mais tocada no ano de 2017.


      Desde Macarena, sucesso que o grupo Los del Rio lançou em 1996, uma música cantada em espanhol não conseguia tanta simpatia por parte do público brasileiro. Do lado de cá da linha do Equador, só precisamos de um pouquinho de esforço para entendermos o contexto e aprendermos a cantar a letra original. Porém, no começo de 2017, por meio do cantor Israel Novaes, a música brasileira decidiu nadar contra a corrente e lançou a música Passito, uma versão em português para Despacito.

      Depois, no dia 14 de julho, há um mês atrás, foi lançada uma outra versão em português da mesma Despacito e com a voz do mesmo Israel Novaes. Com autoria de Erika Ender, panamenha filha de brasileiros e coautora da canção original, a letra em português mantém o título em espanhol. Porém, desta feita, Israel Novaes divide os vocais com Luis Fonsi, o inconfundível intérprete de Despacito.

      Trazer a música para o idioma português, no entanto, foi um erro completo. Pra começar, as palavras cantadas por Novaes parecem um tanto quanto fora de sincronia com o arranjo proposto: os ouvidos mais apurados percebem que as palavras cantadas não soam em perfeita harmonia com os arranjos. É como se a interpretação fosse demasiadamente forçada. Além disso, a versão desvirtua um pouco o sentido da original e, por consequência, perde muito de seu teor poético, conforme a imagens a seguir ilustram.

       

      Inegavelmente, ambas as músicas tratam de questões inerentes ao universo do relacionamento. Porém, nota-se uma rasa preocupação do brasileiro em manter a mensagem original, pois a letra brasileira troca o sabor agridoce da sensualidade emanada pela letra em espanhol por uma linguagem de conotação mais sexual. Em sua versão, Israel Novaes abre o jogo sobre seus rituais de acasalamento; Luis Fonsi, por sua vez, diz como joga o jogo da conquista.

      Pequenos detalhes, grandes diferenças

      De acordo com o produtor musical espanhol Nahúm García, há um pequeno detalhe que fez de Despacito algo tão especial. Segundo García, a canção fisga o ouvinte após 1m23s, momento este em que a melodia para e Fonsi diz pela primeira vez a palavra ‘despacito’.

      “A ruptura na música é radical e faz alusão à intenção sexual da letra, criando uma unidade entre intenção e efeito”, postou o produtor no Facebook. “O cérebro percebe que aconteceu uma parada incomum, e isso chama a atenção”, acrescentou.

      Gráfico mostra momento chave de Despacito (Reprodução/Twitter)

      Na letra em português, a palavra ‘devagar’ é mencionada depois de 1m01s. Por mais que tenha a mesma pausa na melodia, a música não decola e soa como se estivesse travada. E por uma pura e simples questão de fonética, a dicção de Fonsi transforma a pronúncia do advérbio “de-va-gar” em “ji-va-gar“. Dessa forma, o artista porto-riquenho não soa com a cadência desejada e causa estranhamento aos ouvidos. Culpa dele? De forma alguma, pois ninguém tem a obrigação de saber falar bem uma língua que não lhe pertence. Culpa de Israel Novaes? Menos ainda! O artista brasileiro apenas fez o seu trabalho e encarou, com muita personalidade, o desafio de cantar com um dos maiores astros da música atual. O erro, no entanto, deve ser colocado na conta de quem planejou e determinou a gravação, isto é, quem está no topo da indústria fonográfica e não gosta de perder as oportunidades de abocanhar fatias de lucro em todos os nichos possíveis do mercado.

      Os números explicam

      Nem mesmo do ponto de vista mercadológico a Despacito ’made in Brazil’ decolou. Se Fonsi + Yankee colhem os melhores frutos das paradas de sucesso e são donos do vídeo musical mais visto da história do YouTube, Israel Novaes e o mesmo Luis Fonsi não figuram nem entre os 100 principais vídeos no Brasil.

      Vídeo da música original permanece entre os mais importantes publicados no Brasil (Imagem: Reprodução/YouTube)

      De acordo com dados da Recording Industry Association of America (RIAA), entidade que contabiliza as vendas do mercado fonográfico dos Estados Unidos, Despacito gravada por Fonsi e Yankee registra 55 certificações de multi-platina, correspondentes a 3,3 milhões de vendas. Por aqui, a mesma música conseguiu driblar a pirataria e tem o registro de disco de platina, que corresponde à venda de 100 mil unidades, de acordo com a Pró Música Brasil, o órgão responsável por monitorar os números da indústria fonográfica brasileira.

      Despacito original vende igual água no deserto

      Nem a pirataria consegue parar Despacito original(Imagem: Reprodução/Internet)

      Por sua vez, a versão de Despacito gravada por Israel Novaes e Luis Fonsi não apresenta certificação em nenhuma das entidades.

      Desta forma, entende-se que o desempenho da música traduzido em números não justifica a versão em português. Levando em conta a aceitação do público brasileiro para com a versão original, diminui-se ainda mais os acertos da música gravada pela dobradinha Fonsi + Novaes: Despacito cantada na língua portuguesa, de fato, não faz com que o pop latino consiga mais apreciação no território brasileiro, tampouco internacionaliza a música brasileira. Logo, se os artistas envolvidos projetaram fazer um intercâmbio musical e promover pontes entre as culturas, a tentativa foi desnecessária, quiçá falha.

      Israel Novaes tem talento, é bem assessorado, então, depois disso tudo, a gravadora deve induzi-lo a dar passos mais seguros na carreira. Boa sorte, Israel!