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      Vendas de guitarra despencam 80% no Brasil; mais uma crise no rock?

      16 de fevereiro de 2018 14:01 Por Gustavo Morais

      Em entrevista recente, o músico Eric Clapton comentou que “talvez seja o fim das guitarras”. Por mais que tenha aplicado doses de seu típico humor inglês na declaração, Clapton pode ter feito uma previsão correta.

      Ao redor do mundo, fabricantes de guitarra sofrem com a queda nas vendas. Nem mesmo as gigantes Fender e Gibson estão conseguindo escapar da guilhotina que ronda o mercado. Na tentativa de driblar sinais de crise, muitas marcas estão investindo e reedições de modelos clássicos e lançamentos de instrumentos estilizados por lendas das seis cordas.

      Slash e a Gibson desenvolveram um modelo Firebird (Foto/Instagram)

      Ao trazer a situação para a realidade brasileira, basta ligar os pontos e lembrar que o mercado do lado de cá da Linha do Equador é dependente das questões de importações. Como até fabricantes nacionais montaram instalações no exterior, nós estamos 100% influenciados pela importação. Para completar, o alto valor do dólar dificulta nosso poder negociação.

      De acordo com dados da Associação Nacional da Indústria da Música (Anafima), entre os instrumentos musicais, a guitarra é o que apresenta os piores resultados nas vendas. Comparando os números de importações de 2012 com 2017, as guitarras amargam uma queda de 78%. Por suas vezes, as importações de violões caíram 33%. Já os instrumentos de percussão e teclados, a redução foi de 55%.

      Dados da Anafima indicam queda brutal nas vendas de guitarra (Imagem/Facebook)

      Em conversa com a rádio CBN, o presidente da Anafima, Daniel Neves, argumentou que a queda é um reflexo do que é ilustra as paradas de sucessos.

      Existe uma questão de moda. O sertanejo foi um estilo musical que pegou. O número de violões sobe, não o de guitarras. Quando a gente tinha um movimento da indústria fonográfica para o forró, o número de acordeons aumentou incrivelmente. Acho difícil dizer se a guitarra vai voltar a ser um instrumento do momento. É muito mais uma questão de quem será que vai reinventar a roda da música

      Para o músico Fernando Magalhães, guitarrista da banda Barão Vermelho, a crise que assola a economia brasileira é uma das principais razões para a queda nas vendas de instrumentos musicais.

      Estamos atravessando uma crise muito grande no país. Eu acho que as pessoas realmente não tão com grana pra ficar fazendo investimentos e, geralmente, a guitarra é um instrumento muito caro. Esses três últimos anos foram anos bem complexos e as pessoas não estão com muitas condições para fazer investimentos

      Menos apocalíptico do que Eric Clapton, Daniel Neves não crê na morte da guitarra. De acordo com sua ótica, no entanto, o rock vive uma fase de pouca influência sobre os jovens.

      Guitarra lendária ganha nova versão

      Jovens de hoje não se interessariam pelo modelo que Hendrix meteu fogo? (Foto: Divulgação)

      Quem concorda 100% com Clapton é o músico e produtor Fred Nascimento, que tocou com as bandas Legião Urbana e Capital Inicial. Na condição de “seguidor do Clapton”, Fred acredita que “ao longo dos anos, o rock foi ficando bonzinho. O rock vai se tornar um estilo assim como jazz, como o blues: vai assumir um status cult”.

      Fred Nascimento não enxerga tempos fáceis para as guitarras (Foto: Site oficial)

      Aprofundando o discurso de Neves e não descordando das palavras endossadas por Eric Clapton e Fred Nascimento , o jornalista Paulo Marchetti pontua que o problema mercadológico não está no desinteresse pelo rock. Para Marchetti, que também é escritor e foi diretor de vários programas nas emissoras MTV, Multishow, Cultura e Disney Channel, a música vive uma era mais tecnocrata e menos poética.

      O rock nunca foi e nunca será um gênero musical muito consumido no Brasil. Não faz parte da cultura e tradição do país. O que aconteceu nos anos 80 e nos anos 90 não vai mais acontecer. Por isso acredito que a baixa venda de guitarras está ligada a falta de interesse do jovem pela música em geral e não só o rock.  Fazer arte aqui no Brasil não dá dinheiro, ainda mais em tempos de crise. Então nada mais natural que o jovem procurar o que vai dar segurança ao seu futuro

      Por sua vez, Fernando Magalhães discorda um pouco do tom apocalítico de Marchetti e levanta a questão do papel da mídia na influencia do tipo de música que as pessoas consomem.

      Tenho trabalhado com bastantes bandas de rock e o rock está bem aceso. Porém, creio que não tá havendo espaço ou interesse da mídia em colocar isso [o rock] pra frente. O rock é uma música do mundo e nunca vai acabar.

      Ainda segundo o guitarrista do Barão, o rock sempre “passará por várias fases, mas sempre estará aí”.

      Fernando Magalhães (à direita) acredita que a crise está na economia, mas não no rock (Foto: Divulgação)

      Aprender a tocar um instrumento requer uma rotina que envolve muitas horas de estudo, práticas e descobertas. Sendo assim, o imediatismo das novas tecnologias pode fazer com que as crianças e adolescentes de hoje se interessem menos por atividades que consumam muito tempo. Inevitavelmente, tal desinteresse aciona a “Lei da Oferta x Demanda” e gera uma cadeia de eventos nas questões mercadológicas. Se o público não tem tempo ou interesse para tocar guitarra, o vendedor não tem para quem vender e o mercado sofre abalos.

      Não é a primeira vez que a guitarra passa por adversidades. Em 17 de julho de 1967, por exemplo, Elis Regina, Edu Lobo e vários outros ícones da MPB lideraram a famigerada “passeata contra a guitarra elétrica”. Com o slogan “defender o que é nosso”, os artistas somaram forças para “salvar a música brasileira da invasão estrangeira”.

      Gigantes da MPB durante a “passeata contra a guitarra elétrica” (Reprodução/Internet)

      Nos anos 80, os riffs, solos e arpejos perderam a preferência para os teclados e aparatos eletrônicos. Desta forma, não é exagero entendermos que a guitarra representa a resistência. Logo, as questões envolvendo os números de vendas de guitarras não podem ser encarados como indicativos de crise no rock. O rock não está em crise… O rock é a crise! E além do mais, a guitarra é do rock, da lambada, do axé, da MPB [quem diria, hein?!], do brega, do pop e tudo mais que precise de notas musicais para existir!