Notificações Amigos pendentes

      Cifra Club News

      Resenha: “BANG” é a definição perfeita de um álbum “OK”

      7 de dezembro de 2015 12:34 Por Damy Coelho

      Anitta é um fenômeno. Chegou de repente no mainstream, com o seu “Show das Poderosas” e, em pouco tempo, todo o Brasil cantarolava a canção por aí. Nem parece, mas isso foi em 2013. Apenas dois anos se passaram, mas, na efemeridade que se tornou a indústria fonográfica brasileira, dois anos no topo já é consagração absoluta de um artista. Não à toa, o seu terceiro álbum de estúdio, “BANG”, foi um dos mais aguardados de 2015. Todo esse fenômeno tem uma razão de ser que passa pelo timming certo – o Brasil ainda não tinha uma cantora com tanto apelo pop que se ambientasse no funk – pelo carisma natural da cantora e por uma competente equipe de assessores, produtores e compositores por trás de Anitta.

      A personalidade carismática e extrovertida da cantora, porém, já deve ter deixado sua assessoria em maus bocados. Enquanto em seu release oficial lê se a todo momento que Anitta é uma cantora que participa ativamente do processo de criação de seu álbum, desde a escolha gráfica até as composições – e esta é uma tecla que a sua assessoria insiste em bater, a da “compositora” – Anitta se desmente em entrevistas, já tendo afirmado, por exemplo, que não tem tempo de compor e entra em contato com sua equipe de criação somente por email. Desde que  fenômenos antes independentes como Lana Del Rey ganharam o mundo pop, percebe-se uma tentativa de vender um cantor como “independente” e realmente criador de sua arte, como se tudo fosse feito longe da indústria, mesmo que tenha uma equipe criativa gigantesca por trás e que tudo precise passar pelo aval de uma grande gravadora.

      Pois BANG reflete exatamente isso: o poder de uma carismática e competente cantora em potencial, mesclado com uma equipe de produção que molda a sua imagem para que seja agradável à indústria e que gera, como resultado, um álbum repleto de hits em potencial. O CD, que foi o mais ouvido no Spotify Brasil na primeira semana de lançamento, já começa com a pedrada faixa-título: se alguém pensava que Anitta não seria capaz de emplacar um hit tão poderoso (e chiclete) quanto “Show das Poderosas”, é porque não estava preparado para “BANG”. A música dispensa apresentações e o seu clipe, com o ótimo projeto visual de Giovanni Bianco (que reflete a arte do álbum) reflete todo o frescor inspirado nas pop art de Andy Warhol. Começar o álbum com essa faixa é garantir a atenção do ouvinte para as músicas seguintes. Estratégia de mestre.

      A segunda faixa também já era conhecida do público. “Deixa ele sofrer” foi o primeiro single divulgado do álbum. Uma baladinha agradável e fácil de ser cantarolada por aí, mas que, definitivamente, não tem a força da faixa que o antecede. “Cravo e Canela”, em parceria com Vitin, chega com a responsabilidade de vir após duas músicas que já são queridinhas do público. As chances de desagradar sobre uma faixa desconhecida vir seguida de hits em um álbum são altas. A faixa, de fato, não tem o poder que Anitta é capaz de mostrar. Mais uma baladinha que tem a cara do verão, com batidas inspiradas no reggae pop e inspirada no pop feito nos anos 90 por Fernanda Abreu e Claudinho e Buchecha. O que derrapa é a letra, que apela para clichês-cult como citar Drummond e Cannes, possivelmente uma tentativa de vê-las viralizando em frases soltas no Facebook e e sendo citada com imagens de por do sol com filtros de Instagram.

      A faixa seguinte, “Parei”, quebra o clima reggae-pop-romântico com uma batida eletrônica animada. A ideia, provavelmente, foi criar um hit para as pistas e, de fato, toda a estética da música leva a isso, até o excesso de autotune na voz de Anitta – não porque a cantora precise, mas porque a técnica combina com a batida eletrônica criada para a música. Apesar de ser uma faixa que promete ser sucesso nas baladas por aí, a letra é um pouco incoerente: nela, Anitta afirma que “saiu da vida de noitada”; a tal “vida sem lei”.

      O que também  chama a atenção ao ouvir o álbum é que ele passeia por vários estilos, desde o pop eletrônico, passando pelo samba reggae até chegar no reggae-pop-romântico. Funk é o que menos se vê aqui, mas isso não é necessariamente um problema: pode se tratar apenas um processo de transição de uma cantora que já dava sinais de ser muito mais adepta ao pop tradicional do que ao funk carioca.

      Em “Essa Mina é Louca”, a batida samba-rock, com direito até a um arranjo com cavaquinho, lembra bastante as músicas de Seu Jorge. Porém, não é ele quem divide os vocais com a Anitta, mas Jhamma – nome até então desconhecido que começa a despontar no mainstream. Em “Atenção”, o clima já muda completamente: ouça e prepare-se para viajar novamente aos anos 90, com o funk melody típico da época, feito por cantores como Latino. Ou seja, uma alusão interessante, mas nem um pouco original. “Volta Amor” também peca pela falta de originalidade: a faixa lembra mais um jingle de comercial do que um grande hit. Porém, o fato de ser uma música tão genérica pode fazer com que ela seja uma potencial canção favorita nas rádios brasileiras. O grande destaque do álbum fica com a faixa “Sim”, em parceria com o ConeCrewDiretoria. A levada eletrônica experimental remete ao som “fresh” que anda fazendo sucesso lá fora. A batida promete conquistar até quem torce o nariz para a cantora.

      O álbum começa a perder força nas últimas faixas. Se, entre as 10 primeiras músicas, pelo menos 80% podem se tornar hits poderosos, as quatro últimas não têm o mesmo poder.

      “BANG”, de uma forma geral, reforça as características que fizeram de Anitta um fenômeno: as músicas curtas e diretas, que agradam ao pop instantâneo que faz sucesso atualmente, ganham uma encorpada com a performance da cantora. Além disso, prepare-se para se deparar com a mesma fórmula dos álbuns anteriores, em relação às composições: a ideia do homem popular e “malandrão”, que tem qualquer uma aos seus pés, mas se curva diante de uma mulher poderosa e independente como ela. Parece que o universo pop brasileiro vem apostando nessa temática, que se originou no funk  - eis um dos poucos elementos do estilo que permanecem no trabalho da cantora. Estamos, então, diante de um álbum bom, de forma geral, com grandes hits que prometem tocar nos nossos ouvidos ao longo do ano que vem. Não é nada genial, mas tem o seu valor pois mostra a capacidade da cantora de se reinventar em outros estilos, mas derrapa muito em alguns momentos. Ou seja, um álbum “OK”. Resta saber quais caminhos sonoros estão reservados a Anitta a partir de agora.