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      Alcymar critica sertanejo de Marília Mendonça: ‘música de cachaceiro’

      14 de junho de 2017 9:33 Por Damy Coelho

      Elba Ramalho (Reprodução/YouTube)

      A Festa de São João nordestina, uma das representações culturais mais importantes do Brasil, neste ano ganhou uma grande polêmica entre artistas de diferentes gêneros. Tudo começou com a insatisfação de Elba Ramalho por ver o sertanejo ocupando um espaço grande na festa. A insatisfação não é só da cantora, já que pouco antes do início das festas, surgiu uma campanha no nordeste chamada Devolva Meu São João.

      Em Caruaru (PE), Elba soltou o verbo para os jornalistas. A cantora comentou sobre a ideia da polêmica campanha e sua opinião sobre os sertanejos nas festas juninas. “Eu não tenho nada contra nenhum artista, acho que tem espaço pra tudo (…), porém…eu não canto na festa de Barretos. Dominguinhos também não cantava. A festa é deles. Eles têm essa coisa, de essa área é nossa. (…) quando chega o São João, se não tiver forró, eu não quero”, disse a cantora.

      No sábado (10), Marília Mendonça tomou as dores por todos os artistas sertanejos e resolveu falar ao público da festa de São João de Pernambuco. A cantora não citou Elba Ramalho, mas estava claro que ela se referiu à polêmica.

      “Vai ter sertanejo no São João sim, viu? Porque quem quer é o público. Então, muito obrigada por me abraçarem. Sei que vocês gostam mesmo é de música boa. Não importa o estilo”, disse a cantora.

      Elba Ramalho se focou na crítica por mais espaço para cantores de forró nas festas de São João. Tal crítica é legítima – quando voltada aos organizadores das Festas, e não aos artistas de gêneros diferentes, que nada tem a ver com essa polêmica.

      Alcymar Monteiro, ícone do forró e da música de raiz nordestina, parece não concordar com isso. O cantor fez uma crítica explícita tanto a Marília Mendonça quanto ao sertanejo. Em áudio divulgado pela revista Veja, o cantor parece ter tomado as dores de Elba Ramalho após a declaração de Marília Mendonça em seu show.

      Segundo Alcymar, Marília Mendonça (e os sertanejos atuais) fazem “música para cachaceiro” e chamou o sertanejo atual de “breganejo”. O cantor continua: “sertanejo mesmo é Tonico e Tinoco, é Pena Branca e Xavantinho… não venha me enganar porque eu entendo de música boa e a sua música é horrorosa”, afirmou.

      Ouça o áudio completo:

      “Essa senhora não tem autoridade para falar nada. Como é que ela vem falar que aqui é lugar de sertanejo? Isso é um ‘breganejo’ horroroso para cachaceiro, para quem não tem identidade. Quem tá falando é Alcymar Monteiro“, atacou o cantor.

      E continuou a criticar a cantora (apesar de Marília Mendonça não ter criticado Elba Ramalho). “Não fale mal de Elba Ramalho, que você não tem autoridade para isso, entendeu? Deixa a gente em paz, vão se danar! (…)Dona Marília Mendonça, você é lá de Goiás. Vá cantar lá no seu Goiás. Não vem encher o saco da gente aqui, não, entendeu? Você vem lá de Goiás invadir nossa praia. Agora vê se a gente canta lá no teu Goiás. Vocês não deixam”, afirmou.

      MAIS DO MESMO

      A polêmica entre o sertanejo e outros gêneros musicais não vem do São João de 2017, mas desde quando o gênero nasceu. O sertanejo é uma vertente da música caipira em uma versão antropofágica: o estilo mistura influências que vão da música paraguaia ao bolero, passando pelo rock’n'roll e até mesmo pelo forró.

      Mas se a Tropicália, por exemplo, foi aplaudida justamente por ter levantado a bandeira da mistura e influências, o sertanejo não teve a mesma “sorte”. Talvez por não ter se apegado a um discurso acadêmico e erudito, como aconteceu com a Tropicália. Querendo ou não, o sertanejo sempre foi a música do povo simples, que mesmo não se apegando a um discurso único de identidade, não deixa de ser um legítimo gênero que faz parte da multifacetada cultura brasileira, recheada de influências distintas. Características essas que, inclusive, se assemelham muito à origem do forró.

      Artistas com uma visão mais erudita e purista criticavam o sertanejo por se afastar da música caipira – como se a música caipira, do sertão, só fosse legítima por ser “de raiz”. Outros gêneros, como o samba – que deu origem à sempre aplaudida bossa nova – não foram criticados por terem se diluído na mistura com novos gêneros. Mas o sertanejo nunca teve essa posição de destaque.

      Alcymar Monteiro, ícone incontestável, afirmou que “Tonico e Tinoco que eram sertanejos de verdade”, em num discurso recheado de preconceito sobre o gênero. Mas os mesmos Tonico e Tinoco sofreram críticas no passado, justamente por se afastarem da música caipira de raiz e cantarem algo um pouco mais “urbano” para a época, com influências externas.

      Fora isso, a música de Marília Mendonça, chamada de “brega”, na verdade é uma influência direta do bolero, da bachata e, como dissemos, do próprio forró. O primeiro álbum da cantora foi aclamado até pela crítica mais tradicional.

      O sertanejo é o gênero mais popular do país desde quando nasceu – músicas de Milionário e José Rico, Leandro & Leonardo, Roberta Miranda, Chitãozinho & Xororó (e outros inúmeros exemplos) sempre dividiram os primeiros lugares das rádios com o estilo “da moda” no momento – seja o pop internacional, o rock ou o funk.

      E hoje, mesmo depois de anos de evolução de teorias musicais e com a música sertaneja se renovando a cada dia (é só olhar para o atual movimento chamado “feminejo”, cujo exemplo mais notório é, justamente, a Marília Mendonça), o estilo ainda é visto com preconceito, como se fosse “uma ofensa às tradições”.

      Há quem diga que o sertanejo é “música de indústria”, ou “música para divertir cachaceiros”, justamente porque o sertanejo domina as rádios do país. Mas em tempos de YouTube e Spotify, em que o usuário escolhe aquilo que quer ouvir, o sertanejo ainda exerce posição de destaque entre as músicas mais ouvidas. Parece incoerente esse tipo de ataque, ainda mais no repertório multifacetado da música brasileira; ainda mais em 2017.