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      David Bowie, Lou Reed e Iggy Pop: a tríade de ouro do rock’n'roll

      16 de janeiro de 2016 11:05 Por Damy Coelho

      Um deles era o mal humorado. O outro, o estrela gente boa. O terceiro, um malucão aparentemente sem conserto. Poderia ser a definição de qualquer grupo de amigos que se conheceu na faculdade, mas estamos falando de três dos grandes astros do rock’n'roll: Lou Reed, David Bowie e Iggy Pop, respectivamente.

      A morte de David Bowie na última segunda (12) trouxe à tona a relação entre os três músicos. Iggy Pop, infelizmente o único sobrevivente do trio, foi uma das primeiras pessoas a se pronunciar sobre a morte de David Bowie. “A amizade de David foi a luz na minha vida”, disse Iggy, em um post emocionado em seu Twitter. E não é para menos. Nós provavelmente jamais teríamos ouvido falar em Iggy Pop como o grande astro do rock que ele é se não fosse por David Bowie. Aliás, talvez ele nem estivesse aqui para contar essa história.

      Os loucos anos 1970

       

      Fato é que Iggy pop era um jovem explosivo, meio inconsequente e viciado em drogas no início da década de 70. Mas, apesar das características autodestrutivas, aquele moleque tinha um talento musical e performático como nunca antes visto. E quem percebeu isso foi David Bowie, que já estava colhendo algum fruto de seu sucesso.

      Bowie conheceu Iggy em um bar, em 1971, e, maravilhado com a performance intensa de Iggy no palco com o The Stooges,  insistiu para seu agente contratar Iggy pelo mesmo selo. Iggy estava quase pensando em desistir da carreira, vendo que trazia mais prejuízos do que vantagens. E o seu vício se tornava cada vez mais incontrolável. Bowie, então, convenceu seu agente e trabalhou diretamente com Iggy – ele, em troca, iria se dedicar à carreira e aos conselhos de Bowie e botaria o pé no freio com a vida de esbórnia.

      A relação dos dois ainda teria altos e baixos – com direito a Iggy se ofendendo quando Bowie virou o fenômeno Ziggy Stardust bem na época que em que Iggy estava prestes a lançar seu tão aguardado álbum “Raw Power”, fazendo com que Bowie – que estava por trás da produção – deixasse a mixagem do disco bastante a desejar, de acordo com Iggy. Isso acabou afastando os dois por alguns anos. Mas tempos depois eles viriam a se reencontrar.

      Iggy Pop não esconde que Bowie foi figura fundamental para que ele se libertasse de seu vício das drogas – o cantor teve uma recaída pesada em meados dos anos 70, chegando a se internar em um manicômio  - foi quando Bowie foi visitá-lo durante a internação e se ofereceu para ajudar na produção de nada menos que dois álbuns de Iggy, que seriam lançados no mesmo ano (1977):  The Idiot e Lust for Life. (Foi o ano também que Bowie lançou o seu clássico Low, que também teve influência direta do amigo). Tudo o que Iggy tinha de fazer era se dedicar. Ele, é claro, topou na hora.

      Os dois álbuns marcaram a estreia da carreira de Iggy Pop sem os Stooges e geraram um certo burburinho – futuramente, viriam a se tornar álbuns cults, favoritos de nomes como Ian Curtis (dizem que o vocalista do Joy Division se enforcou ouvindo “The Idiot” – a parte macabra da história toda).

      Nesse mesmo período, Bowie chamou Iggy para companhá-lo em sua turnê mundial e este último ficou impressionado com o sucesso que o amigo tinha conquistado. Bowie também acompanhou Iggy Pop em sua turnê e até tocou na banda de apoio do músico como tecladista, posicionando-se discretamente no fundo do palco, para não ser reconhecido – detalhe: Bowie já era extremamente famoso e não queria que sua presença nos shows tirasse o foco de Iggy Pop.

      Mas, claro, David Bowie não era apenas o exemplo de bom samaritano. A lealdade com seus amigos era latente, mas o cantor também teve seus momentos de abuso de drogas, o que chegou a prejudicar sua saúde e aparência física na década de 70. Reza a lenda, inclusive, que as primeiras palavras de Bowie para Iggy quando eles se reencontraram foi “e aí amigão, quer um teco?”. Detalhe: o reencontro ocorreu quando Bowie foi visitar Iggy no manicômio, lugar onde ele  estava internado justamente para se livrar do vício em cocaína.

      Recentemente, Iggy deu uma entrevista reveladora sobre David Bowie: “A amizade dele basicamente me salvou de uma autoaniquilação profissional e pessoal. Muitas pessoas eram curiosas em relação a mim, mas somente Bowie tinha algo realmente em comum comigo, ele foi o único que realmente gostava do que eu fazia e que topou ser meu parceiro. Além disso, ele teve intenções reais de me ajudar quando eu mais precisei. Ele fez uma coisa boa”, afirmou.

      Lou Reed e David Bowie

      Enquanto Bowie se mostrou fã de um talento ainda em ascensão como ocorreu com Iggy Pop, com Lou Reed foi diferente. David nutria uma imensa admiração por ele, que, ao contrário de Iggy, já era um grande sucesso – basta lembrar do fenômeno que foi sua banda anterior, o Velvet Underground. Porém, Lou, como todos sabem, não era um sujeito dos mais simpáticos.

      Dizem que o primeiro encontro de David com Lou foi um tanto constrangedor: imagine um simpático fã, encantado com o trabalho de um ídolo, que não está lá muito afim de papo? Apesar de um primeiro encontro um tanto frio, a amizade dos dois viria a ser consolidada também por meio da música. Mais tarde, eles se reencontraram e David acabou ajudando a compor e produzir um dos álbuns mais icônicos de Lou, Transformer.

      Ao longo dos anos, a amizade entre os três foi feita de encontros e desencontros. Fato é que eles nunca foram tão próximos quanto nos intensos anos 70, mas os frutos da parceria musical do trio é digna de ser celebrada em qualquer época.