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      Rita Lee: uma autobiografia e uma questão de gênero

      22 de dezembro de 2016 13:12 Por Damy Coelho

      Rita Lee: uma autobiografia (Globo Livros Editora)

      O Cifra Club News fez uma análise da autobiografia de Rita Lee, a partir do próprio livro e de algumas resenhas que saíram sobre a obra – um tanto quanto polêmicas e diversificadas em seu conteúdo.

      Acompanhe a nossa reportagem especial clicando nas páginas a seguir.

      A crítica da crítica

       

      Rita Lee: uma autobiografia foi, sem dúvidas, um dos lançamentos mais aguardados de 2016. O livro ainda nem tinha chegado às lojas e muita gente já especulava sobre o seu conteúdo. Será que ele vai clarear a visão nebulosa sobre a saída da cantora dos Mutantes? Como Rita iria retratar o seu relacionamento conturbado com Arnaldo Baptista?

      Pois não diga que não avisamos: se você comprar o livro esperando por respostas, esqueça. Mas isto de maneira alguma deprecia o livro, e a explicação é muito simples: questão de gênero. No caso, de gênero literário. O livro de Rita Lee é uma deliciosa viagem pelo mente criativa e extremamente interessante da cantora, mas trata-se de uma autobiografia.

      O termo deveria ser autoexplicativo, mas o que muita gente vem criticando diz respeito justamente a esse conceito. Não se trata de explicar ou tentar analisar um ponto específico da carreira da artista, mas de conhecer melhor o seu mundo, da forma como ela quiser nos contar.

      Rita Lee: uma autobiografia é, antes de tudo, a celebração da artista sobre sua própria vida. E que ela nos conte essa história como bem quiser.

      Uma autobiografia não necessariamente visa a explicar pontos específicos da carreira de uma personalidade, mas a sua visão de mundo, a viagem pessoal do “olhar-se para dentro”.

      O interessante da autobiografia de Rita é a oportunidade que o leitor tem de embarcar nas memórias da cantora que, no alto dos seus 60 e poucos anos (e lúcida como nunca), remonta com carinho as mais diversas peças de sua vida, com critérios de escolha que passam pelo gosto pessoal e pela própria memória – que, como humana, falha em alguns momentos (falaremos disso em breve).

      Alguns críticos receberam mal o livro justamente por não terem levado em conta essa sutil diferença entre o gênero autobiográfico e o biográfico.

      Insistem em esbravejar que Rita “deveria” ter falado mais sobre Os Mutantes, “deveria” ter exposto mais as festinhas com famosos regradas a sexo, drogas e rock’n'roll e (claro) essas pessoas acabaram se decepcionando quando, ao invés disso, Rita prefere dedicar alguns capítulos aos seus animais de estimação, por exemplo, ou capítulos e mais capítulos sobre a relação apaixonante com Roberto, seu parceiro musical e amoroso há mais de 40 anos.

      Como uma autobiografia (que tem ares de “querido diário”), a seleção das memórias que entram no livro não decepciona quem realmente estiver disposto a ler para conhecer a fundo a personalidade e o processo criativo da cantora.

      Vale destacar, aliás, que Rita passa com detalhes por todos os álbuns lançados ao longo de sua carreira, dando a sua visão atual para cada uma das canções, bem como do seu processo criativo, matando a curiosidade de qualquer fã apaixonado por música.

      E sem medo de assumir que uma música era “bobinha” ou que uma atitude ou outra tomada por ela pode ter sido fonte de arrependimento para a sua carreira. Ou seja, não decepciona em nada outras autobiografias com temáticas musicais.

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      Houve também quem classificasse o livro apenas como um “muro de reclamações” de Rita Lee sobre os Mutantes. Mas aí, também faltou uma análise da obra por ela mesmo, e não sob o ponto de vista “do que poderia ter sido e não foi”. Expectativa x realidade.

      Alguns capítulos, como aquele que a cantora narra um episódio envolvendo Arnaldo destruindo um objeto xodó da família Lee, nos faz perceber porque a figura do Loki não é posta num pedestal.

      Mas não pense também que a cantora desmerece a turma que formou o Mutantes. Qualquer classificação do tipo é um exagero e, novamente, uma análise rasa da obra como autobiografia e como visão pessoal da própria.

      Aos fãs mais puristas que esperavam “mais análises profundas” e “respostas” sobre as polêmicas em torno dos Mutantes, paciência. Espere que um jornalista ou escritor queira contar (e investigar) essa história mais a fundo em um livro, provavelmente quando os ex-integrantes da banda não estiverem mais entre nós. Mas aí não é autobiografia, é biografia. É importante levar em conta essa diferença.

      Para finalizar esse papo, um ponto importante: o livro exalta Rita Lee como personagem principal de sua própria história. E o papel de protagonista nunca foi ocupado por Rita Lee nos Mutantes.

      Visto isso, partimos para o próximo capítulo: o texto 

      A escrita de Rita

      O livro não respeita necessariamente um tempo cronológico: algumas memórias são “adiantadas” no livro, ou memórias antigas trazidas à tona de acordo com o tema, respeitando a ordem organizada pela própria escritora, em capítulos curtos. Trata-se de uma leitura fácil e nada cansativa.

      Isso se deve à escrita de Rita Lee, que é jovial e despretensiosa. Esse é um ponto interessante por poder aproximar a artista de um público mais jovem, que não conhece tão bem o seu trabalho. Quem sabe o “hype” do livro não faz com que alguns adolescentes troquem as autobiografias de youtubers por esta, que tem tanta coisa interessante para contar? Oremos.

      Phantom: inconvenientemente necessário

      O excesso de jovialidade do livro, porém, pode incomodar: é inegável que causa muita estranheza ver um fantasminha desenhado no meio do texto, interrompendo o raciocínio da cantora, principalmente nas primeiras páginas em que ele aparece. O tal fantasminha aparece com o texto dentro de um balão e se apresenta como “Phantom”.

      Parece infantilizado ao extremo. O tal “fantasminha” representa o ghost writer e, no decorrer da leitura, entendemos que trata-se, na verdade, de uma estratégia bastante interessante: como a própria Rita é quem escreve todo o livro (ao contrário de outras “autobiografias” – coloque aí muitas aspas – que são escritas com a ajuda de algum jornalista), alguns detalhes podem ser esquecidos pela cantora.

      Fora a modéstia da artista, que pode a impedir de reforçar o quanto ela foi e é importante para o cenário musical brasileiro. E aí que entra o “Phantom”, deixando mais divertido o papel chato da velha “nota do editor” – ou melhor, “nota da editora”: toda a equipe por trás do processo de edição do livro é composta por mulheres. Mais uma forma sutil que o livro tem de celebrar o feminino (outro ponto que falaremos a seguir).

      Porém, quem assume o papel do Phantom é o jornalista  Guilherme Samora, a quem Rita chama de “colecionador de mim”.

      O “fantasma” (desenhado pela própria Rita) acaba ganhando um papel  de destaque no livro, quase como um personagem extra. É ele quem “corrige” algumas situações em que a cantora foi traída pela memória, ou até mesmo botam Rita em seu devido lugar: como mulher pioneira na música, rainha do rock’n'roll brasileiro, empoderada muito antes dessa palavra virar moda.

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      Mulheres à frente de seu tempo

      A amizade entre Rita e Elis ganha destaque no livro

      Rita Lee: uma autobiografia é, sobretudo, uma celebração do pioneirismo da artista. Durante a leitura vemos o quanto ela foi desvalorizada por críticos e pelos próprios músicos pelo simples fato de ser mulher – já que, na visão dessas pessoas, “para fazer rock, tem de ter culhão” (frase repetida diversas vezes no livro, de forma ironizada).

      Ou, traduzindo para um bom português carregado de machismo: para fazer rock, tem de ser homem. Pois Rita está aí para provar o contrário.

      Algumas das passagens mais deliciosas do livro remontam ao pioneirismo de Rita: ela foi a primeira mulher a ficar em primeiro lugar entre os álbuns mais vendidos do rock’n'roll. A primeira roqueira do Brasil, que um dia, no programa da Hebe, lá nos anos 90, como prova de admiração, no maior estilo fã-ídola, resolveu dar um “selinho” na apresentadora, deixando a própria Hebe chocada (apesar da apresentadora ter amado a iniciativa).

      Sim, o selinho clássico da saudosa Hebe, sua marca registrada na TV brasileira, só aconteceu por causa de um momento de devaneio de Rita Lee.

       

      Aqui, destacamos pontos importantes do livro: os encontros de Rita com outras mulheres tão talentosas quanto ela.

      O encontro de Rita com Leila Diniz – outra mulher à frente de seu tempo – também merece destaque. O famoso vestido de noiva que Rita usa na capa do álbum Mutantes (1969) foi emprestado pela atriz (que, por sua vez, surrupiou o vestido da Rede Globo). Rita relembra que viu Leila nos estúdios da Globo, durante o intervalo de uma gravação, usando o tal vestido de noiva com um All Star por baixo. Detalhe rock’n'roll por conta da própria atriz.

      Simpática, Leila ofereceu o vestido para Rita, sabendo que a cantora adorava caprichar no figurino quando se apresentava.

      Rita Lee usando o vestido de Leila Diniz, na foto que virou capa de álbum dos Mutantes

      Já a amizade de Rita Lee com Elis Regina ganha vários capítulos no livro e merece destaque aqui: quando a queridinha da MPB e a rainha do rock se uniram, até os militares se renderam: a cantora lembra com carinho que foi Elis quem a salvou de quase perder um filho. Presa política (e grávida) durante a ditadura, Rita não recebeu atendimento médico quando passou mal na prisão, e precisou de uma Elis bravíssima aparecer na delegacia para rodar a baiana e exigir dos homens fardados que Rita tivesse um atendimento digno.

      As duas até fizeram um especial para a TV Globo, que também é relembrado na autobiografia:

      Para fechar celebrando essa amizade, Rita Lee relembra o apelido carinhoso que Elis usava para chamá-la: “Maria Rita” – nome que depois seria dado à filha caçula da cantora. Como a própria Rita diz em seu livro: Fofo.

      São momentos como esse que ganham o leitor que realmente quer adentrar na história de Rita, em detrimento de uma ou outra polêmica que são meros coadjuvantes em sua história. Até os momentos difíceis da vida pessoal da artista, como a morte e o abuso sexual, são retratados de maneira tão leve que mal chocam o leitor. No fim das contas, Rita Lee exalta a sua música, as amizades, o processo criativo e o amor pela sua própria arte.

      Sem mais delongas, Rita Lee: uma autobiografia é uma celebração da mulher cantora, escritora, desenhista, compositora, enfim, da multiartista e multifacetada Rita Lee. E, por si só, já basta.

      Fica a dica de leitura pra este Natal.

      Rita Lee: uma autobiografia
      EDITORA Globo Livros
      QUANTO: R$ 44,90 (352 págs.)
      Avaliação: ✩ ✩ ✩ ✩ ✩