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      Mergulhe nos bastidores do narcocorrido, a música fora da lei

      8 de agosto de 2017 9:55 Por Gustavo Morais
      Banda típica de narcocorrido

      Los Tucanes de Tijuana, uma banda expoente do narcocorrido (Foto: Facebook)

      Com a popularidade de séries como Breaking Bad, Narcos, La Reina del Sur, El Chapo e tudo que é produção cinematográfica relacionada ao universo do narcotráfico, um estilo de música ganhou certa evidência. Trata-se do narcocorrido, um subgênero musical do corrido mexicano (também chamado balada do norte), a música tradicional do norte do México.

      O trio mexicano Los Cuates de Sinaloa, por exemplo, ficou mundialmente famoso por cantar o tema Negro y Azul, narcocorrido em homenagem ao personagem Walter White (A.K.A. Heisenberg), protagonista da série Breaking Bad. A música batiza um capítulo e aparece logo na abertura. Ao longo da letra, o cantante Gabriel Berrelleza conta a história de como WW conquistou seu reinado no mundo do narcotráfico. “O cartel está em polvorosa, por causa da falta de respeito/Falam de um tal Heisenberg, que agora controla o mercado/Nada se sabe dele, pois nunca o viram/Da fúria do cartel, ninguém nunca escapou/Esse parça já está morto, mas ainda não o avisaram”, diz a tradução livre de um dos trechos da música.

      A balada do norte é ouvida e produzida em ambos os lados da fronteira México-EUA e em toda a América Latina. A base rítmica desse estilo de música é a polca dançante e os arranjos são criados em instrumentos típicos da música mexicana como acordeão, violão e canto dos mariachis. As letras dos narcocorridos fazem referência a eventos específicos e incluem datas e lugares reais. Sem muito pudor, as canções retratam com aprovação e heroísmo as atividades ilegais, principalmente os feitos relacionados ao tráfico de drogas.

      Lá na gringa, os críticos de música conectam o estilo das letras do narcocorrido ao gangsta rap. As apresentações costumam ser um tanto quanto teatrais e simulam tiroteios, uso de armamento pesado, entre outras coisas, conforme você pode conferir no trecho de um show da banda Buknas de Culiacán.

      Os chefes dos chefes

      Nem mesmo ícones do corrido mexicano deixaram de flertar com o narcocorrido. Famoso no mundo inteiro e dono de 5 estatuetas do Grammy, o grupo Los Tigres del Norte, por exemplo, prestou reverência aos feitos de Arturo Beltrán Leyva, antigo líder do Beltrán-Leyva Cartel, com a faixa El Jefe de Jefes (O Chefe dos Chefes), lançada em 1987.

      Morto por uma rajada de tiros em 2009, o ilustre homenageado pelos Tigres del Norte fez fama por produzir e exportar maconha, cocaína e metanfetamina.

      Há uma infinidade de temas dedicados aos pesos pesados do narcotráfico. Com o narcocorrido El Señor de los Cielos (O Senhor dos Céus), o cantor El As de la Sierra enalteceu Amado Carrillo, o barão das drogas conhecido por usar uma imensa frota de aviões para transportar sua mercadoria; as músicas El Chapo Guzmán (O Chapo Guzmán), El Enemigo Público (O Inimigo Público) e El Regreso Del Chapo (A Volta do Chapo) são algumas das muitas gravadas em homenagem ao traficante El Chapo Guzmán, que está entre os homens mais ricos do mundo e é conhecido por suas fugas cinematográficas; e com El rey de los Capos (O rei dos dos chefes), a banda La Furia Norteña prestou suas reverências a Pablo Escobar, aquele que dispensa qualquer apresentação.

      É imoral, mas não é ilegal

      Por mais incrível que as palavras supracitadas possam parecer, o narcocorrido não é proibido e movimenta muita grana. No documentário Narco Cultura (2013), o músico Edgar Quintero, integrante da banda Buknas de Culiacán, conta como as odes que cria para os chefes do tráfico garantem uma vida confortável e luxuosa na Terra do Tio Sam. Abaixo, você pode ver o momento em que Quintero negocia com um capanga de um de seus clientes.

      Quem também fez fama e história com narcocorrido é o cantor mexicano El Komander, um camarada que sabe como ostentar. Natural da cidade de Culiacán, o artista tem quase 10 anos de carreira e faz shows por toda a América do Norte. Para cuidar de seus interesses profissionais, ele tem contrato com a gravadora Twiins Music Group e mantém escritórios no México e nos Estados Unidos.

      El Komander, ostentação made in México

      El Komander e sua comitiva de carros de luxo; ostentação made in México (Foto: Facebook)

      Outro ponto forte do Komander é o apelo popular nas redes sociais. No Facebook, por exemplo, com mais de 11,3 milhões de curtidas, ele ultrapassa a soma de curtidas de Wesley Safadão e Marília Mendonça.

      Com a força da imigração mexicana ao longo das últimas décadas, a balada do norte conseguiu abrir portas no mercado estadunidense e conquistou espaço nas rádios e clubes de dança. Em razão da notável popularidade do estilo, produtores e artistas começaram a lançar produções direcionadas ao mercado americano. Muitos artistas fazem shows com lotações esgotadas e têm CDs distribuídos por gravadoras americanas, bem como DVDs com vendas exclusivas nos Estados Unidos.

      Amado por muitos, mas contestados por tantos outros, o narcocorrido é mais do que uma realidade e não demonstra sinais de queda de popularidade. No caso desse estilo tão fora da lei, cabe ao apreciador de música a tarefa de fazer o devido juízo sobre o que deve tocar em seu reprodutor de música.