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      Não é só no funk: relembre letras polêmicas do samba ao sertanejo

      25 de janeiro de 2018 13:51 Por Gustavo Morais

      Ao longo da segunda metade do mês de janeiro de 2018, as músicas Só Surubinha de Leve (em sua versão explícita), de MC Diguinho, e Vai, Faz a Fila, de MC Denny despertaram polêmicas na Internet. Para muitos, os versos das respectivas canções representam misoginia e apologia ao estupro. Na opinião de outros, incluindo juristas, é tudo uma questão de liberdade de expressão.

      MC Denny também teve problemas com uma de suas letras(Foto/Divulgação)

      A problematização em torno das músicas foram significativas a ponto de forçar as plataformas de streaming a ignorar o elevado número de plays e optar por bani-las. O clamor popular forçou MC Diguinho a gravar uma “versão light” para Só Surubinha de Leve. Para o musicólogo e pesquisador de funk Carlos Palombini, os singles de Diguinho e Denny motivaram imensa revolta por parte da opinião pública justamente por serem funk. “Sim, não tenho dúvida quanto a isso. As formas de lazer do grupo ao qual esses MCs pertencem são criminalizadas desde sempre”, afirma.

      MC Diguinho gravou versão alternativa de Só Surubinha de Leve (Foto/Divulgação)

      Porém, músicas com versos que podem levantar polêmicas não são exclusividade dos tempos atuais e, menos ainda, do universo funk. Nas obras de expoentes como Noel Rosa, Francisco Alves e vários outros artistas e compositores que fizeram história nas décadas da primeira metade do século XX há músicas que, entre outros temas controversos, apresentam violência doméstica nas letras.

      Chico Alves também cantou versos polêmicos (Foto: Internet)

      Na faixa Mulher Indigesta, por exemplo, Noel canta sobre uma “mulher que merece um tijolo na testa” ou até mesmo “entrar no açoite”. Por sua vez, na canção Amor de Malandro, segundo Chico Alves, “Se ele te bate, é porque gosta de ti, pois bater-se em quem não se gosta, eu nunca vi”.  Aparentemente, no entanto, não há problematizações mais incisivas em torno de tais obras. Para o jornalista e professor de história da música Ricardo Frei, o tratamento menos fervoroso em relação ao pessoal da velha guarda se dá por dois motivos:

      Primeiro, o contexto e as formas como os agentes, partícipes do processo de produção e circulação da obra, se portavam eram outros. Sem contar que podemos também pensar que a mentalidade, a dimensão moral, tudo isso, uma vez que são dinâmicos, por algum motivo faziam com que o público, muito específico, não se importasse com isso. Outra hipótese muito relevante é que talvez isso já incomodasse, mas o contexto e os seus arranjos não davam espaço para vozes contrárias. Entender isso de maneira responsável nos exige um mergulho naquele tempo para entender a mentalidade, os valores e as condições sociais que regiam o momento. Contudo, tenho convicção e provas de que o fato de ambos os artistas citados acima serem oriundos da classe média e não dos morros e favelas do Rio de Janeiro, são os principais fatores definidores da aceitação que sabemos ter ocorrido com suas obras

      Quem também gravou uma canção passível de problematização foi Elza Soares, diva plena da música brasileira popular. No ano de 1960, em seu disco de estreia, Se Acaso Você Chegasse, ela imortalizou a música Mulata Assanhada. Composta por Ataulfo Alves, a obra tem em sua última estrofe os seguintes dizeres:

      “Ai, meu Deus, que bom seria/Se voltasse a escravidão/Eu pegava a escurinha/Prendia no meu coração/E depois a pretoria/É quem resolvia a questão”

      Para o senso comum, os versos supracitados podem indicar uma espécie de racismo velado. A problematização, inclusive, poderia girar em torno do fato de que Elza é uma mulher negra e de origem humilde. Segundo Palombini, uma eventual polêmica em torno de Mulata Assanhada é completamente desnecessária e representaria uma guinada rumo ao conservadorismo, sobretudo porque a própria cantora gravou a música sem receios.

      Elza gravou essa música em seu primeiro álbum. Na contracapa ela dizia: ‘Tenho 21 anos, fui mãe de seis filhos, encarei muita fábrica de sabão e cantava no clube do bairro por ‘duzentas pratas’ a sessão; se eu não fosse alegre, o que seria de mim?’ Espero que a cultura popular brasileira não perca o hábito do autodeboche. De outro modo esse país, já muito triste, se tornará insuportável

      No caso do pop rock brasileiro, músicas como Rock das Aranhas, de Raul Seixas; Vira-Vira; dos Mamonas Assassinas; e Selim, dos Raimundos, estão em uma longa lista de canções que indicam conteúdo machista, sexista ou até mesmo misógino. Na música Silvia, clássico da banda baiana Camisa de Vênus, por exemplo, um dos versos apregoa que “Todo homem que sabe o que quer/pega o pau pra bater na mulher”.

      Para muitos, essas músicas são inofensivas e até “engraçadinhas”. É inegável que elas recebem uma fiscalização relativamente mais branda, por parte da opinião pública, quando comparada com músicas de funk. Segundo Palombini, tal leveza se dá “porque a linguagem do rock, por mais que se esforce, não consegue ser tão diruptiva quanto a do funk”. Em concordância com Palombini, Frei argumenta que “o funk assusta uma determinada audiência que se esconde do universo em que os funkeiros estão inseridos”.

      Existe, sim, uma má vontade e um preconceito terrível com as músicas que vêm dos morros e dos subúrbios. De novo: foi assim com o samba! Como se este material precisasse ser pacificado antes de consumido pelas classes abastadas ou cultas. Portanto, trata-se de um filtro preconceituoso, que fecha os olhos às outras manifestações

      Avançando algumas décadas na linha do tempo, chegamos na era em que o sertanejo universitário é soberano como estilo de música mais consumido no Brasil, sobretudo pelo público jovem. Apesar de ser o som que uma boa parte da juventude gosta de curtir nas baladas e playlists dos serviços de streaming, não se pode negar que muitos hits do estilo são músicas cujas letras lidam com questões que também envolvem machismo, sexismo, banalização do sexo e objetificação da mulher.

      Duplas Henrique e Diego e Bruninho e Davi são expoentes do sertanejo universitário (Foto: Internet)

      Como relevar, por exemplo, que, na música Vidinha de Balada, a dupla Henrique e Juliano se considera dona das vontade de uma suposta garota e assim o afirma ao declarar: “vai namorar comigo, sim!”? Por sua vez, no single Empurra Whisky Nela, o duo Bruninho e Davi recomenda que o título da música seja levado a sério, pois “beba, ela libera”. Já na música Ciumento Eu, Henrique e Diego ultrapassam os limites de possessividade e descrevem um relacionamento que seria, na melhor das hipóteses, corrosivo, conforme atestam os versos a seguir:

      “Tem uma câmera no canto do seu quarto/Um gravador de som dentro do carro/E não me leve a mal/Se eu destravar seu celular com sua digital”

      Por mais que eventualmente as letras do sertanejo ultrapassem um pouco o limite do razoável, a sua popularidade não é abalada. De acordo com dados  recentes do Instituto Crowley, conhecido por monitorar as execuções das rádios brasileiras, no ano de 2017, 87 das 100 músicas do ranking são do estilo. Na ótica de Palombini, o ibope se dá porque, ao contrário do funk, o sertanejo não é criminalizado. Desta forma, “o gênero não desenvolveu uma estética de confronto”. Por sua vez, Frei aponta as metamorfoses conceituais que a música sertaneja vem vivendo desde os tempos de Cornélio Pires.

      O universo sertanejo não é mais aquele ‘caipira’, meio naif, com o qual nos acostumamos tempos atrás. É um universo inclusive de muita ostentação. Aliás, critica-se muito o funk ostentação, mas cantar o ‘Camaro Amarelo’ não causa estranheza. Percebe que o lugar social do artista e da canção interferem em tudo isso que estamos apontando? É o seguinte: entendo que não há estranheza porque os sertanejos cantam uma forma de lidar com as questões que são familiares ao público. Tal público não está familiarizado com as formas como as mesmas coisas acontecem no subúrbio. Provavelmente, dado o olhar com que se avalia o funk, tais “patrulhas” acham deveras vulgar o jeito com o qual tratam as cantadas, o sexo, as relações de afeto. Repito: trata-se apenas de uma falta de se colocar no lugar do outro, de impedir o outro de dizer sobre o que lhe é caro ou pertinente

      Letras de conteúdo passível à problematização sempre existirão nos mais diversos gêneros musicais. A grande questão é que, independente de estilo ou de intérprete, nenhuma música pode gozar de licença poética para imortalizar versos que sugiram assuntos de natureza controversa. Apagar o que já foi gravado não tem jeito, pois, como disse Renato Russo, “disco é pra sempre”. Porém, nós temos o dever de filtrar o conteúdo que constitui nossas playlists e acervos.