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      Clube da Esquina: uma história de acordes e amizade

      23 de março de 2012 9:40 Por Vivi Velano

      A música brasileira comemora, neste mês de março os 40 anos de lançamento do disco “Clube da Esquina”. O álbum é um ‘divisor de águas’ na cultura nacional e por isso, o Cifra Club News não poderia deixar de prestar uma homenagem.

      O movimento conhecido como “Clube da Esquina” nasceu da impossibilidade financeira que impedia alguns jovens de Belo Horizonte de frequentarem os bailes e festas dançantes dos clubes da época. Assim, esses personagens se encontravam no cruzamento das Ruas Divinópolis com Paraisópolis, do tradicional Bairro Santa Tereza, na capital mineira. Ali, conversavam, cantavam, tocavam e dividiam suas descobertas e anseios de vida. Era o momento de ápice da Ditadura Militar e não foram poucas as vezes que a repressão das autoridades impediu as reuniões.

      Não era apenas uma esquina! Era o encontro de muitas vontades, referências, sonhos em comum que se solidificaram naquele mítico disco duplo, lançado em 1972.

      Alguns dos integrantes da turma

      Os notáveis Milton Nascimento, o popular Bituca, e Wagner Tiso se conheciam desde a época em que moravam na cidade de Três Pontas, interior de Minas Gerais. Foram muito bem recebidos pelos músicos mineiros e traziam consigo uma bagagem musical de suas andanças por Minas (Três Pontas, Alfenas, Diamantina).

      Milton se mudou para BH e foi morar em uma pensão no Edifício Levy, situado na Avenida Amazonas. Lá, conheceu os irmãos Márcio e Lô Borges e passou a ser considerado o ’12º filho da família Borges’. Lô Borges e Milton estreitaram amizade pela música. Em uma bela manhã, Lô descia, ainda garoto, pelas escadarias do edifício em que residiam, com a tarefa de comprar pão e leite. Pelo caminho, ficou inebriado ao ouvir a voz aveludada de Milton cantarolando pelos corredores. Ficaram amigos, desde então e naquele dia, a família Borges ficou sem tomar o café da manhã.

      Bituca sempre gostou de tocar e cantar as músicas de seu próprio jeito. Fazia novos arranjos e imprimia seu olhar a cada uma delas. Márcio Borges passou, então, a insistir que ele compusesse, pois acreditava que seus arranjos para as músicas dos outros era uma verdadeira ‘vontade de compor’. Um dia foram juntos ao cinema para assistir “Jules et Jim”, de Truffaut. E, arrebatados, depois de horas de filme – entraram na sessão das duas da tarde e só saíram às dez da noite – naquela noite chegaram em casa e começaram uma parceria que continua até hoje.

      Capa de "Clube Da Esquina", um clássico da música brasileira

      Em 1971, Milton já radicado no Rio de Janeiro, e com o sucesso que sua música “Travessia” alcançou num dos “Festivais da Canção” da cidade, voltou à capital mineira e convidou Lô Borges – ‘um cara de Belo Horizonte que ninguém conhecia’ – para gravar um disco. Lô foi para o Rio de Janeiro, encantado pela convite, e levou o amigo Beto Guedes, afinal, quem iria tocar com ele as músicas dos The Beatles de que tanto gostava?! Milton havia alugado uma casa em Piratininga, Niterói, e, cada um estabelecido em um quarto, foi desenvolvendo melodias, letras e canções. Muitos dos músicos envolvidos no projeto também frequentavam a casa em Niterói.

      Naquela época, muitos já tinham em sua trajetória musical elementos suficientes para se enveredarem por lugares nunca antes percorridos. Milton Nascimento, Wagner Tiso, Fernando Brant, Márcio Borges, Lô Borges, Nivaldo Ornelas, Beto Guedes, Toninho Horta, Paulo Braga levaram o pop; a bossa; o jazz; o clássico; o regional; o sertão; o rural; e, cada um com sua filosofia estava munido da confiança mútua na capacidade e no talento do outro.

      Foi uma “oficina de ideias”, diz Lô. Uma “unidade dentro da diferença”, expressa Márcio Borges. A liberdade na distribuição dos instrumentos era a mesma conquistada entre eles: os músicos tocaram muito bem, em cada música do disco, os instrumentos de sua livre escolha. O álbum foi todo gravado em dois canais, e o que seria uma limitação proporcionou uma concentração e um respeito com o outro – ninguém errava, senão tudo voltava ao início. Milton, “o irmão mais velho”, como ele mesmo diz, foi quem centralizou o projeto. Mas não havia uma direção definida. Ele cantava e os músicos tocavam em função dele. E assim surgiu o disco mais emblemático da história da música mineira, que foi difundida pelo mundo.

      Alguns anos depois, em 1978, após agregarem novas amizades pela vida e pelo mundo, lançam o disco “Clube da Esquina 2″. O álbum foi concebido e idealizado por Milton e o grande atrativo são as participações ilustres de artistas como Elis Regina e Chico Buarque.

      Os músicos trabalhando durante a gravação do álbum

      Clube da Esquina imprimiu sua assinatura na música brasileira e é reconhecido por sua inovação de linguagem e sua comunhão de diferenças em uma só melodia. Suas canções foram realmente “semeadas no vento”. Nesse 40 anos, os músicos pretendem comemorar a data com alguns shows e existe um Projeto para se estabelecer um Museu físico, nos arredores da Praça da Liberdade. Enquanto isso, podemos conferir suas canções, ler sobre suas histórias, inclusive em quadrinhos, e estar sempre em contato com esses músicos, no site Museu Clube da Esquina, que surgiu principalmente para revelar suas memórias.

      Existem, ainda, significativas publicações sobre o “Clube da Esquina”, como “Os Sonhos Não Envelhecem – Histórias do Clube da Esquina”, de Márcio Borges, “Coração Americano : 35

      Anos do Álbum Clube da Esquina” , de Andréa Estanislau, e o Gibi “Histórias do Clube da Esquina”, de Laudo Ferreira e Omar Vinole, além de diversos blogs sobre o tema.

      40 anos depois, Tonho e Cacau, os garotos da capa do disco (Crédito - Túlio Santos/EM)

      Recentemente, Tonho e Cacau, aqueles dois meninos que estamparam a capa do disco “Clube da Esquina”, em 1972 – foto tirada por Cafi (Carlos da Silva Assunção Filho, pernambucano de Recife e amigo de Ronaldo Bastos e Milton Nascimento), foram encontrados no interior do Rio de Janeiro. Muitos, inclusive, atribuíam a imagem a Lô Borges e Milton Nascimento.

      Simples e comovente, sua história transmite uma sólida amizade semelhante àquela consolidada pelos músicos do “Clube da Esquina”, que apesar de não se verem sempre, nutrem até hoje, o mesmo sentimento de união que existia na época. Esta musicalidade é algo que vai de Minas para o mundo há quatro décadas porque os “sonhos não envelhecem”!

      Veja  o relato de como Lô Borges e Milton Nascimento se conheceram e ouça uma de suas lindas canções: