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      50 anos de Rolling Stones, a banda que surgiu para ser imortal

      12 de julho de 2012 10:23 Por Gustavo Morais

      Cinco décadas de Rolling Stones

      E lá se vão 50 anos desde que os Rolling Stones fizeram a sua primeira apresentação no Marquee Club, em Londres. Elvis Presley já era um mito, os Beatles estavam em começo de carreira e Bob Dylan já era o cantor de voz esquisita, porém, com cabelos despenteados.

      Ao longo de tantas décadas, não é pequena a quantidade de bandas maravilhosas que surgiram. Em contrapartida, o advento de artistas com qualidade duvidosa é igualmente proporcional.  Mas no final das contas, os Stones são alguns dos poucos que conseguiram envelhecer com dignidade e competência o suficiente a ponto de ter sua arte perpetuada de geração a geração.

      Contar a história completa deles é uma tarefa deveras complexa, talvez impossível. Seria necessário escrever livros, produzir filmes, pintar quadros e até encenar peças de teatro. Partindo desta condição, o Cifra Club News selecionou para o amigo leitor alguns fatos da trajetória desta banda que se recusa a morrer…

      Divirta-se! É apenas rock and roll, mas nós (com a licença poética que nos é permitida) gostamos!

      Beatles e Stones rivais?

      Paul e Mick trocando figurinhas no estúdio

      Uma das grandes piadas do meio musical é a famosa “rivalidade entre Beatles e Stones”. O que sempre existiu na história das duas bandas é soma entre os fundamentos do respeito e da amizade.

      A associação entre Stones e Beatles começou lá pelos idos de 63, quando os quatro garotos de Liverpool foram assistir a um show das pedras rolantes no Richmond, em Londres. Após a apresentação, Lennon e seus asseclas foram curtir uma noitada de blues no apartamento que era dividido por Jagger, Brian e Keith. Ainda naquele ano, a dupla Lennon / McCartney presenteou os Stones com a música “I Wanna Be Your Man“, que acabou sendo o segundo compacto da banda.

      John e Mick no "The Rolling Stones Rock and Roll Circus"

      De acordo com o músico Bill Wyman, ex-baixista dos Stones, no Livro “Stone Alone”, em 15 de setembro de 1963, as duas bandas dividiram o mesmo palco pela primeira e última vez na história. Bill afirma que naquela data, os Stones abriram para os Beatles em um concerto chamado “Great Pop Prom”, no Royal Albert Hall, em Londres. O evento era de cunho beneficente e visava auxiliar o “Fundo de Pensão dos Gráficos”.

      Os músicos de uma banda registram participações nos trabalhos da outra, mas sempre de maneira individual, não como “os Beatles” ou “os Rolling Stones”. John Lennon e Paul McCartney cantaram na música “We Love You“, Brian Jones tocou sax na música “You Know My Name (Look Up The Number)“, Mick Jagger e Keith Richards participaram do vídeo de “All You Need Is Love“.

      A partir da esquerda: Clapton, Lennon e Richards

      Durante 1967, era comum Jagger, Richards e Jones irem até os estúdios de Abbey Road e assistirem os Beatles trabalhando nas gravações do disco “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band”. Fascinados com os resultados de “Sgt. Peppers”, os Stones decidiram beber da fonte da psicodelia, mergulhar no experimentalismo e gravaram o polêmico “Their Satanic Majesties Request”, que fracassou nas paradas de vendas e serviu apenas para fazer a banda voltar às origens do blues e do rock visceral.

      Em 1968, Lennon se juntou a Eric Clapton (guitarra solo), Keith Richards  (baixo ) e Mitch Mitchell, do The Jimi Hendrix Experience, (bateria) e formou o supergrupo The Dirty Mac. Esta reunião de divindades do rock só existiu por alguns minutes com o propósito de participar do especial de TV, “The Rolling Stones Rock and Roll Circus”. Em diversos momentos do vídeo é possível ver ao semblante feliz de John por participar do acontecimento.

      Os Rolling Stones podem ser qualquer coisa, menos uma banda anti-Beatles.

      A importância de Brian Jones, o gênio incompreendido

      Brian literalmente no topo dos Stones

      Uma boa parte dos fãs dos Stones classifica “a fase anos 70″ como o período mais criativo da banda. Discos maravilhosos surgiram naquele período, como “Exile on Main St.” (1972) e “It’s Only Rock And Roll” (1974). Porém, um dos personagens mais importantes da trajetória grupo, quiçá da história do rock and roll, não fez parte deste momento mágico: o guitarrista Brian Jones.

      Lewis Brian Hopkin Jones, filho de um engenheiro com uma dona de casa, ainda garoto descobriu sua indiscutível aptidão musical. Aos 17 anos descobriu o blues e decidiu que seria como os mestres Muddy Waters e Elmore James. Entre os anos de 1962 e 1969, Brian Jones agrupou os músicos que formariam a banda, decidiu que o grupo deveria se chamar The Rolling Stones, ensinou Mick Jagger a tocar gaita e mostrou a Keith Richards como ser um verdadeiro pirata da vida.

      Brian tocando cítara, um dos instrumentos que dominava

      Enquanto esteve na banda, Jones era o único integrante que sabia escrever e ler partituras e era especialista em “roubar namoradas” dos demais companheiros, incluindo Jagger e Richards. Ao verificar a ficha técnica dos primeiros álbuns da banda, observa-se que o popular Brian Jones foi o responsável por tocar: guitarra, banjo, gaita, gaita de fole, xilofone, harpa, saxofone, bandolin, acordeon, marimba, cravo, dulcimer, trombone, tambourine, mellotron, flauta, violoncelo, oboé, ukulele, clarinete, piano, xilofone, trompete, bateria e cítara.

      O fato de possuir tamanha habilidade com instrumentos, não fez de Jones um compositor com voz ativa na banda. Em progressões geométricas, Brian perdeu a liderança dos Stones para a dupla Jagger/ Richards e passou a ser um indivíduo, deprimido, entregue às drogas e praticamente fazendo figuração nos estúdios de gravação.

      Em 8 de junho de 1969, Jones foi convidado a se retirar da banda.  Menos de um mês depois, no dia 3 de julho, ele foi encontrado afogado na piscina de sua casa, na região de Cotchford Farm, em Sussex. Desde então, várias interrogações rondam as causas da morte do músico, principalmente porque ele era um exímio nadador.

      Brian Jones (à direita) e a família "Ono Lennon"

      O mundo da década de 1960 não estava preparado para um talento como o de Brian Jones. Ele fez parte do seleto grupo de artistas que vivia à frente de seu próprio tempo e oferecia à música uma mente selvagem e deveras habilidosa. Assim como outros gênios da música, Brian contava 27 anos quando morreu.

      Dois dias após a morte de Jones, os Stones fizeram um show no Hyde Park, em Londres. Em um determinado momento da apresentação, Mick Jagger prestou tributo ao ex-companheiro ao recitar versos do poema “Adonais”, do poeta britânico Percy Bysshe Shelley, que diz: “Peace, peace! He is not dead, he doth not sleep! He hath awakened from the dream of life”, que pode ser traduzido como: “Paz, paz! Ele não está morto, não está dormindo! Ele apenas acordou do sonho da vida”.

      A origem da “imagem da língua”

      Logo repaginada para comemorar 50 anos

      Um simples esboço de pensamento a respeito do nome Rolling Stones, provoca a imediata visualização mental da clássica imagem da boca, com a língua para fora, que a banda usa como logomarca.

      A logo foi usada pela primeira vez no encarte do disco “Sticky Fingers”, de 1971. Por ser uma peça totalmente ligada ao conceito da “pop art”, muitas pessoas acreditam que o criador desta obra foi o lendário Andy Warhol, porém, a imagem foi criada por John Pasche, um estudante de artes da “Royal College of Art”, faculdade situada em Londres. Em 1969, Jagger pediu ao artista que elaborasse uma arte para os Stones, já que as sugestões propostas pela gravadora da banda, a “Decca Records”, não foram aprovadas.

      Há alguns anos, ao falar sobre a obra, o artista demonstrou consciência a respeito de que planejou fazer uma imagem que entrasse para a história da cultura pop. “O conceito de design da língua era representar a atitude subversiva da banda, a boca de Mick e as óbvias conotações sexuais”, afirmou. “Fiz o design de modo que fosse facilmente reproduzido e em um estilo que imaginei ser capaz de resistir ao teste do tempo”, disse.

      Após mais de 40 anos, a logo trouxe aos Stones a solidificação da marca da banda e centenas de milhares de dólares oriundos das vendas de produtos licenciados e ilustrados com a “imagem da língua”.

      Recentemente, como parte das comemorações de seu cinquentenário, a banda solicitou ao artista Shepard Fairey que repaginasse a icônica. O artista, felizmente, não propôs um design que descaracterizasse a imagem.

      A trajetória musical de Ron Wood, o eterno “guitarrista novato dos Stones”

      A partir da esquerda: Jeff Beck, Rod Stewart, Nick e Ron Wood

      O primeiro dia do mês de junho de 1947 serviu de data para que viesse ao mundo Ronald David Wood. Com origens fincadas no bairro Hillingdon, em Londres, Wood cresceu em um ambiente familiar musical, sendo que seu pai tinha uma banda, sua mãe adorava cantar e seus irmãos mais velhos tocavam em bandas de jazz e blues. Apesar da atmosfera sonora, a primeira manifestação artística que brotou no coração de Wood foi o desenho.

      Na medida em que crescia, Ron percebia o quão a vida de músicos que seus irmãos levavam rendia a companhia de mulheres bonitas e sucessivas viagens para fazer shows. Naturalmente, começou a tocar e não tardou até fazer parte de uma banda. Entre 1964, Wood montou uma banda chama The Thundebirds – que precisou mudar o nome para The Birds, em razão de um grupo homônimo – e caiu na estrada, mas acabou em 1966. Pouco após o fim do Birds, Ron assumiu o posto de baixista no The Jeff Beck Group, que além do folclórico Jeff Beck na guitarra, contava com o festeiro Rod Stewart nos vocais. A banda lançou dois discos seminais, mas as ambições pessoais e os desgastes internos provocaram a separação do grupo.

      Ron Wood e Rod Stewart nos tempos de The Faces

      No final dos anos 60, após saírem do The Jeff Beck Group, Ron e Rod uniram forças aos renascentes da banda Small Faces e reduziram o nome da banda para The Faces. Até 1976, os músicos dividiam seu tempo entre turnês, estúdios e bares. O grupo era formado por Rod Stewart (voz), Ron Wood (guitarra), Kenny Jones (bateria), Ronnie Lane (baixo) e Ian Mclagan (teclados).  O quinteto gravou quatro discos e rompeu as atividades porque Kenny Jones assumiu as baquetas do The Who, a carreira solo de Stewart atingiu pleno estrelato e Wood, em 76, foi efetivado como guitarrista dos Rolling Stones.

      A missão de Ron nos Stones não foi nada fácil, pois teve que substituir ninguém menos que Mick Taylor, um guitarrista dono de uma técnica apurada e sensibilidade artística acima de qualquer suspeita. Taylor saiu da banda porque percebeu que seu talento como compositor seria eternamente desprezado pela dupla Jagger / Richards.

      No livro “A Life on The Road”, o músico afirma que seu primeiro show com os Rolling Stones não aconteceu de maneira tranquila. “Um mês antes do meu primeiro show, eu precisei aprender 125 músicas! Subi ao palco em Baton Rouge com 125 mil acordes flutuando em minha cabeça. Nunca vou esquecer o que a Melody Maker falou sobre a minha estreia: ‘Wood é um fracasso’”. O tempo passou, Ron mostrou seu valor e escreveu sua história musical com canetas de ouro, ou melhor: com a tinta do sucesso.

      Mick, Ron e Keith "tocando o terror" durante show dos Stones

      A contagem de anos que Ron tem como integrante dos Stones é maior do que a soma dos anos que seus dois antecessores estiveram na banda. Ao lado de Jagger e companhia, Wood viveu anos de glórias capitaneados por discos como “Some Girls” (1978) e “Tatto You” (1981), mas também amargou duras críticas graças a trabalhos pouco inspirados como “Dirty Work” (1986).

      Atualmente, Wood é um dos integrantes dos Rolling Stones que mais fala a respeito de uma turnê comemorativa. Resta aos fãs, a tarefa de torcer para que os planos do guitarrista narigudo e de cabelos esvoaçados se concretizem.

      Rolling Stones pisando em terras brasileiras durante os anos 60?

      Apesar de começar suas atividades como banda em 1962, os Stones, inacreditavelmente, só fizeram shows no Brasil durante a década de 90. São vários os fatores catalisadores de tamanha ausência, como, por exemplo, a economia, a repressão imposta pelo governo militar e também os produtores brasileiros, que até há bem pouco tempo não tinham ousadia suficiente para apostar em grandes shows. Há quem acredite que a ousadia dos produtores ainda é pouca, mas isso é outra história…

      Mas, por incrível que pareça, Mick Jagger e Keith Richards desbravaram os solos brasileiros muito antes de a banda fazer apresentações apoteóticas no Brasil. Em janeiro de 1968, Jagger e sua então companheira, a atriz e cantora, Marienne Faithful, desembarcaram no Aeroporto do Galeão, no Rio de Janeiro. O objetivo do casal era curtir férias pelo Brasil e por isso se portou como turistas anônimos, mas tal estratégia não funcionou como o planejado e não demorou muito tempo para que o sossego desse lugar ao voraz assédio da imprensa e dos fãs. Porém, a primeira visita de Mick ao Brasil trouxe como saldo a inspiração tribal para a música “Sympathy From The Devil“, que abre o disco “Beggars Banquet”, lançado no final daquele ano.

      Em dezembro de 68, pouco após o lançamento do especial de TV “The Rolling Stones Rock and Roll Circus”, a dupla Jagger / Richards voltou ao Brasil, com suas respectivas esposas, para aproveitar alguns dias de férias. Apesar de ter a imprensa, os fãs e um cordão de bajuladores em seus calcanhares, os roqueiros conseguiram aproveitar com mais prazer esta visita ao Brasil. Durante a estadia em terras tupiniquins, eles estiveram no Rio de Janeiro, pelo interior de São Paulo, com direito a uma viagem de Kombi, que teve no percurso visitas às cidades de Matão, Ouro Preto e Belo Horizonte, por onde conseguiram ser ilustres desconhecidos.  Naquelas férias, Mick e Keith escreveram uma das canções de maior sucesso da banda, “Honky Tonk Women“.

      Nas décadas seguintes, os integrantes dos Stones retornaram ao Brasil, mas sem nunca fazer show. Até que em 1992, o baterista Charlie Watts fez uma série de shows com seu quinteto de jazz, Charlie Watts Quintet. A turnê que teria nove shows foi cancelada após a 5º apresentação, em razão da baixa venda de ingressos.  Três anos após a fatídica turnê, Watts voltou ao Brasil com os Rolling Stones e fizeram apresentações apoteóticas. Em 1998, retornaram ao país e deram mais uma aula de como uma banda de rock deve se comportar no palco. Já em 2006, sem ter que provar mais nada a ninguém, a banda tocou diante de 1,5 milhão de pessoas, na praia de Copacabana, no Rio de Janeiro.

      Na galeria dos imortais

      Os 50 anos dos Rolling Stones são celebrados com louvor. No começo da carreira, eles foram taxados de “vagabundos”, “má influência para os jovens”, “tentativa de cópia dos Beatles”, mas aqui estão completando cinco décadas. Trata-se de uma banda formada por roqueiros que sobreviveram a divórcios, bebedeiras, brigas, overdoses e todas outras adversidades possíveis.

      Estes hoje senhores britânicos são testemunhas oculares, e principalmente lúcidas, de todas as transformações vivenciadas pela cultura pop em geral. A musicalidade única proposta por eles teve o poder de influenciar praticamente tudo que veio depois. Se não fossem os Stones, não existiria Aerosmith, AC/DC, Guns N’ Roses, Barão Vermelho, The Hives e uma lista infinita de bandas e artistas.

      O rock and roll comemora o cinquentenário de uma banda que surgiu para ser imortal. Um brinde eterno aos Rolling Stones!