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      “Guitar Days”: filme retrata o cenário da música underground no Brasil

      7 de março de 2016 12:06 Por Damy Coelho

      Os cariocas do The Cigarretes, uma das bandas que participam do filme (Divulgação/Marcelo Colares)

      Quando o assunto é rock nacional, muita gente já se lembra dos anos 80 e das grandes bandas que despontaram nesta época, como Titãs e Paralamas do Sucesso. Porém, o estilo abrange vários nichos e bandas de qualidade ímpar, que acabaram ficando na cena independente. Se avançarmos no tempo por alguns anos, mais precisamente para a década de 90, podemos destacar bandas talentosíssimas que conquistaram um público fiel e vieram a influenciar várias outras – como Garage Fuzz e Valv, só para citar alguns exemplos. Nomes influenciados pelo estilo alternativo do Nirvana e toda a geração grunge, e também pelo som do Sonic Youth, My Bloody Valentine e pelo estilo shoegaze que despontava nos EUA na época. São as bandas que fomentaram o indie rock nacional. Talvez você conheça muito pouco sobre eles, mas é sempre tempo de correr atrás dos vários talentos desta cena. E é justamente para voltar o holofote a essas bandas que o documentário “Guitar Days” foi idealizado.

      O projeto tem a missão de resgatar a cena independente musical dos anos 90, através de depoimentos de músicos, jornalistas e mais pessoas que viram tudo aquilo de perto. Diversas bandas participaram do documentário, que já está em processo adiantado de produção. Porém, como o esquema é o “faça você mesmo”, o filme precisa de incentivo para ir para a frente – foi aí que surgiu a campanha de financiamento que visa levantar fundos para bancar o restante da produção.

      Conversamos com o idealizador do “Guitar Days”, Caio Augusto Braga, que nos explica melhor sobre o filme. Ele destaca que o projeto, além de mostrar a cena indie brasileira desde os anos 90,também retrata a realidade das bandas atuais que tiveram grande influência desta geração anterior – ou melhor, porque essas bandas deram o chute na porta para fortalecer uma cena de rock nacional com muita qualidade e sem medo de arriscar.

      Cifra Club News: Por que retratar as bandas do cenário alternativo dos anos 90 que cantavam em inglês? Fale um pouco sobre o projeto.
      Caio:O início do projeto não contemplava este cenário. A intenção era fazer um curta-metragem sobre a ocupação do espaço público pelos músicos independentes em São Paulo. A partir do momento em que a pesquisa foi se aprofundando no tema, percebi que havia uma outra história, mais abrangente, que ainda não havia sido contada: a história das bandas que decidiram romper com o b-rock dos anos 80, assumir a distorção das guitarras e cantar em inglês. A história do rock nacional é muito bem registrada dos anos 60 até hoje, com exceção desta primeira metade dos anos 90. Depois do boom do b-rock com Legião Urbana, Os Paralamas do Sucesso, Capital Inicial e afins, o mercado só retoma seu interesse no estilo em meados dos anos 90, quando o começa a se abrasileirar com Raimundos, Mundo Livre S/A e a influência dos chamados selos “independentes” das grandes gravadoras, como Tinitus e  o Banguela. O que torna esta primeira metade dos anos 90 relevante? Estas bandas tiveram total influência no que hoje chamamos de indie rock nacional. O caminho foi aberto por Pin Ups, Second Come, Killing Chainsaw, Garage Fuzz, Brincando de Deus, Low Dream, Pelvs, The Cigarettes, e mais um número de bandas que assumiram abandonar quaisquer chances de sucesso comercial, para seguir naquilo que lhes fazia sentido como arte. O jornalista Alex Antunes, da Bizz, fala em seu depoimento para o documentário que “as bandas preferiram fazer parte de um underground mundial, em vez de tão somente um underground brasileiro”. Foi a época em que o grunge surgiu nos EUA e a MTV desembarcou no Brasil. São fatos que desenharam a personalidade do nosso rock na época. O filme retrata este boom da primeira metade dos anos 90, contextualiza o cenário alternativo-independente a partir daí, e descreve seus desdobramentos até os dias de hoje.

       

      Pin Ups (Divulgação)

      CCNComo foi o processo de percorrer o Brasil colhendo os depoimentos das bandas? 
      Caio: Logisticamente é uma tarefa complicada para um país com dimensões continentais como o nosso, e ainda contar apenas com os seus próprios recursos para custear essas viagens. Mas a decisão nesse momento foi não pensar muito nisso. Se você pensar o quanto vai custar uma passagem de táxi do aeroporto Lauro de Freitas até o Pelourinho, ou o ônibus de Londrina para Curitiba e listar o gasto com alimentação ou seguro de equipamento, você não sai de casa. Mas quando você senta para conversar com os artistas sobre suas experiências com suas bandas nesse mundo independente, tudo isso é um mero detalhe. Me sinto privilegiado de ter tido a oportunidade de ouvir essas histórias, muitas vezes pela primeira vez. E novamente, são artistas. Quando falamos de música independente, pode-se pensar que são pessoas interessadas em música como hobby, não é o caso. Eles são tão artistas quanto um Sonic Youth, com a diferença de sua produção ser limitada por terem que se dedicar a outras atividades para custear sua produção artística. Quem não segue música independente pode achar isso um exagero, aí faço um convite para ouvir um álbum dos anos 90 (Super Kids, Super Drugs, Super God and Strangers – Second Come, 1994) e outro recente (A Lifetime A Minute – The Soundscapes, 2014), para fazer sua própria análise.

      CCN: E qual foi o critério de escolha de quem iria participar do filme?
      Caio: ”Obedecemos um critério objetivo para desenhar as entrevistas para o documentário. Quando se trata de música independente, tentar indicar a “banda mais relevante” após o boom do início dos 90 é bobagem. Os indicadores que se aplicam para definir quem vende mais no mainstream não se aplicam nesse segmento. Não existe o” Globo de Ouro Indie”, muito menos o EP de platina a ser entregue em um programa de auditório. Estas bandas estão baseadas em suas cidades e, apesar de saírem para tocar em outros rincões, uma banda independente dificilmente pode se dar ao luxo de fazer uma turnê para marcar presença em todos os cantos do país.O início desta cena foi acompanhado e registrado por jornalistas que marcavam presença nos shows, como Alex Antunes, Humberto Finatti e Marcel Plasse, escrevendo matérias em veículos de alcance nacional como a Revista Bizz. Com este cenário em mãos, chamamos várias bandas que vivenciaram algumas histórias dentro dos temas que a produção propôs. Os gaúchos do Loomer falam sobre longas viagens, o Wry fala sobre tentar a sorte em Londres, o Intense Manner of Living fala sobre a confusão e os instrumentos destruídos no Juntatribo. São fragmentos de experiências que, de certa forma, descrevem as linhas gerais do que é fazer parte disso”.

       

      Second Come/Divulgação

      CCN: De fato, a cena do rock nesta época foi bastante representativa nos anos 90 e 2000. Bandas de shoegaze dos EUA e do indie inspiraram bastante o som daqui e refletiram em bandas de extrema qualidade, como Valv, The Cigarretes… mas, apesar de forte, esta cena não saiu do underground. A quê você atribui isso?


      Caio:”Houve um intercâmbio maior com estas bandas que eram influência para as nossas. Com o dólar baixo, foi possível trazer para o Brasil um número de bandas que até então só se via pela MTV. Somente os mineiros da Motor Music (selo e produtora independente) trouxeram bandas como Fugazi, Seaweed, Jon Spencer, Man Or Astroman?, Mudhoney, Nofx, Superchunk, Atari Teenage Riot, e dezenas de outras. Com a possibilidade de fazer esse tipo de evento acontecer em território nacional com certa constância, percebeu-se ali que o público brasileiro optava mais pela novidade do que pela regularidade. A própria Fernanda Azevedo, da Motor Music, contou pra gente que o público se animava quando a banda vinha ao Brasil pela primeira vez, mas já não demonstrava tanto interesse quando vinha pela segunda, mesmo que fosse para lançar um novo trabalho, “Eles diziam que já tinham visto essa banda”. Isso também se aplica para as bandas nacionais. Mas se há certo desinteresse pelo público e isso começa a se confirmar através desta dinâmica, a pergunta que devemos fazer é “o que levou o público do rock alternativo-independente não consumir música ao vivo no Brasil, como é consumida nos EUA e Inglaterra?”Dentre todos os pontos que podem ser levantados para tentar entender este comportamento do público, existe um que aparecerá de 10 em 10 debates sobre este cenário: a qualidade do som nos shows. O público quer ouvir noise, mas o noise que o artista criou, e não aquele do cabo mal soldado. Hoje, em São Paulo, há um grupo de casas de shows que se reuniram para trocar informações e práticas para, juntos, criar alternativas para viabilizar uma melhor experiência para o público e artistas. Esse grupo é o Palco 10 (P10). Um dos membros deste grupo é o Mancha Leonel, da Casa do Mancha, aqui de São Paulo, na Vila Madalena. Quem teve a oportunidade de assistir a shows na casinha como público ou tocar lá como músico vai entender que tipo de serviço eles têm a intenção de proporcionar. O público curte a exibição porque consegue ouvir e se divertir, e o músico percebe que houve um cuidado para que sua sonoridade saísse de forma adequada para o público. Todos ganham. Sendo assim, aquele público que desistiu de frequentar shows de bandas independentes porque tudo era muito amador, devem se dar outra chance e ver que as coisas estão mudando por aí. É um processo de profissionalização, uma movimentação para uma melhora estrutural para esse segmento, sobretudo no trato com todos envolvidos, público, artistas, empresários e funcionários destas casas. Sobre os artistas, eu até poderia afirmar que as bandas deste cenário não teriam interesse em sair do underground. Seria verdade se estivéssemos falando apenas dos pontos negativos que representam o mainstream, controle sobre a produção artística, sobre sua agenda, sobre quem toca com você, sobre quem faz seus videoclipes, sobre o que você come pela manhã. Eles não querem isso. O ponto é que todas essas bandas, sem exceção, não abrem mão da maneira como sua produção artística é concebida e conduzida”.

      CCN: O projeto mistura o passado – das bandas dos anos 90 – com bandas atuais que estão fazendo um som que segue a mesma linha, como Câmera e Far From Alaska. Comente um pouco sobre esse encontro de duas gerações no mesmo contexto musical.

      Caio: “Estas bandas caminham pela estrada que foi aberta pelas bandas dos anos 90. Eles sabem disso e reverenciam estas bandas.Por exemplo, o pavio do Far From Alaska foi aceso. Há uma possibilidade real da banda atingir um sucesso comercial que é atípico para quem canta em inglês no Brasil. O único que atingiu tal status, dentro deste cenário alternativo-independente, foi o Cansei de Ser Sexy (CSS). A banda fala sobre essa iminente possibilidade, que Adriano Cintra descreve como “ganhar na mega-sena”. Já o Câmera (banda mineira de indie rock), em pouco tempo de estrada já lançou seu incrível álbum “Mountain Tops” e engatou uma tour por seis estados brasileiros, além de ter participado do badalado Primavera Sound (de Barcelona, um dos principais festivais indie do mundo). Os integrantes falaram pra gente como bandas dos anos 90 e 2000 como Valv, Vellocet e Multisofá influenciaram no indie atual de Minas Gerais e sobre a nova realidade das bandas da região com as possibilidades que a internet oferece para divulgação e escoamento de suas produções. As bandas dos anos 90 não tinham essa facilidade. Mas nem tudo são flores na internet, e também abordamos isso no documentário de forma abrangente”. O projeto de financiamento do “Guitar Days” conta com diversas recompensar para quem quiser viabilizar a finalização do documentário, que é super importante por retratar o cenário do rock brasileiro.

      Para saber mais, basta entrar no site oficial da campanha.