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      Resenha: o “álbum branco” do Weezer é um retorno aos anos 90

      11 de abril de 2016 9:08 Por Damy Coelho
      Nota8 Lançamento: Abril/2016 Gênero: Rock GravadoraS: BMG/Crush Music


      Não é difícil estabelecer quando o Weezer se tornou um clássico do nicho chamado de “rock alternativo”. A banda surgiu no início dos anos 90 e logo no álbum de estreia já conquistou fãs fiéis – foram eles, aliás, que apelidaram os álbuns da banda por nome de cores – desde o primeiro e amado “Blue Abum”, de 94, até o mais recente, que virou o “The White Album” – nome um tanto quanto presunçoso ao remeter ao clássico dos Beatles, vale dizer. Porém, assim como aconteceu o álbum dos britânicos, a cor branca parece ter trazido sorte ao Weezer. Ou melhor: depende da perspectiva.

      Os saudosistas de plantão provavelmente vão adorar este novo disco, que tem basicamente todos os elementos que tornaram o Weezer um ícone. Bote aí letras sensíveis que abordam os temas mais genéricos, junto a refrões poderosos – esta, aliás, é uma característica marcante do Weezer, que marca o estilo power pop do grupo. Os primeiros singles lançados e que serviram como “aperitivo” para álbum cheio foram escolhidos a dedo, afinal, são as melhores músicas do disco, sem dúvida alguma. E são justamente elas que lembram os bons tempos de hits como  ”Say It Ain’t So” e “El Scorcho“. São eles:  ”Thank God for Girls“, “King of the World” “L.A. Girlz” e “Do You Wanna Get High” – esta última que pode ser eleita como a melhor do disco. Vale ouvir com atenção.

      “Jacked Up” também é uma boa pedida, por diferenciar um pouco do som clássico da banda, com uma linha de base no piano e um apelo bastante pop – porém, alguns fãs mais saudosos podem torcer o nariz justamente por ser um ponto fora da curva no som dos norte-americanos. Reforçando a ideia inicial: é tudo uma questão de perspectiva.

      Trata-se de um álbum, de certa forma, pouco arriscado – mas, nos poucos pontos nos quais corre o risco de inovar, isto é feito com bastante potencial e focado na inspiração de hits radiofônicos que ouvimos atualmente por aí. Isso talvez se deva ao fato de que o “White Album” do Weezer foi produzido por Jake Sinclair (que já trabalhou com nomes ultra-pops e atuais, como Taylor Swift e 5 Seconds Of Summer). Porém, o que chama a atenção no currículo do sujeito é o fato de ele já ter tocado em uma banda cover de Weezer. Talvez por contar com a produção de um profissional que está de olho no mercado pop e que ainda é um fã potencial da banda, é que o “The White Album” remeta tanto aos hits dos primeiros discos do grupo, mas com um diferencial: a mixagem que beira à perfeição, com arranjos bastante homogêneos, são qualidades que mostram a grande evolução na produção musical da banda.

      O ponto alto: as letras


      Um aspecto que chama a atenção no álbum são as letras, que mostram um amadurecimento notável de Rivers Cuomo como compositor. A conclusão não é para menos: o músico fez um verdadeiro trabalho antropológico para inspirar suas letras, inclusive fazer uma conta no Tinder – fato que ele confessou em uma entrevista, mas afirmou veementemente não ter dado “match” em ninguém. “Na verdade, eu não conheci ninguém na vida real. Foi mais uma relação textual”, esclarece.

      O álbum como um todo, aliás, é inspirado na vida levada na cidade de Los Angeles. Este ponto pode desagradar alguns fãs, por lembrar os hits-chiclete de qualidade duvidosa que botam toda a qualidade pop/indie do Weezer à prova, como “Beverly Hills“. Mas ao ouvir o álbum prestando atenção nas composições, percebe-se que há uma linearidade sobre a narrativa de um típico californiano. Além disso, as letras possuem um tom sutilmente crítico, que muitas vezes remetem a uma Califórnia ensolarada, falsamente feliz e um tanto fútil.

      Um elemento aqui a se destacar é a letra romântica presente em “King of The Word“, em que um homem confessa o amor por sua esposa de longa data, mesmo estando rodeado de relacionamentos frágeis e pouco duradouros, como aquelas das celebridades hollywoodianas. Qualquer semelhança com o casamento de Rivers Cuomo – que já dura 10 anos, e contando – não é mera coincidência.

       

      Algumas faixas do álbum – as que mais se diferenciam do conjunto de músicas, como um todo – são aquelas que entregam a inspiração confessa em  Beach Boys, já declarada por Rivers Cuomo  em entrevistas recentes. Ganha destaque aqui a ótima “(Girl We Got) A Good Thing”, que mistura um riff digno de punk rock à melodia de baladas dos anos 60, bem inspirada na banda de Brian Wilson.

      Outra música que segue a mesma inspiração é “Endless Bummer”, que fecha o disco, e trata-se de uma das boas surpresas. A música começa despretensiosa, acústica, com uma sonoridade bastante nostálgica – e logo cresce de uma maneira que o ouvinte não espera, com um solo de guitarra digno do melhor power pop que o grupo sabe fazer. Um ponto a se considerar é a letra, em que o cantor pede para que o verão acabe logo. O verão, a estação que inspirou o álbum como um todo. É como se tudo ficasse mais claro: à medida que o disco vai tocando, o ouvinte faz o retrato de um verão que prometia ser leve e feliz, mas escancara a decadência e a solidão de uma geração que busca o Tinder como uma espécie de consolo ou válvula de escape para resolver os dilemas pessoais. A inspiração nos relacionamentos contemporâneos é nítida em faixas como “Thank God for Girls”, em que o vocalista-compositor escancara o seu modo platônico de ver as mulheres: “I wish that I could get to know her better/But meeting up in real life would cause the illusion to shatter” (ou: “Eu queria conhecê-la melhor/ mas conhecê-la na vida real poderia ser uma desilusão”).

      A conclusão que fica é que “álbum branco” do Weezer tem pouco de inovador, mas trafega bem naquilo que a banda sabe fazer de melhor. Sem dúvidas, já é um dos álbuns mais relevantes da banda dos últimos anos. Os grandes fãs que o digam.