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      Lemonade: o flerte de Beyoncé com o rock e a música alternativa

      2 de maio de 2016 12:28 Por Damy Coelho

      Não é de hoje que Beyoncé é provavelmente o maior nome do pop atual. E são vários fatores que explicam este fenômeno: a sua consistente carreira solo, construída de forma inteligente e desvinculada do Destiny’s Child, o seu casamento com Jay Z, que faz com que eles sejam o casal mais balado da música (e estejam sempre nos holofotes) e, principalmente, a sua posição de defesa em relação a mulheres e negros.

      E por mais que alguns insistam que hoje é “tendência” falar sobre o feminismo, por exemplo, vale lembrar que Beyoncé já tinha essa vertente muito antes de lançar o seu penúltimo álbum, em que ela defende escancaradamente o movimento. Basta lembrar da letra de “Survivor”, uma das primeiras composições da cantora, ainda no Destiny’s Child: desde aquela época, Beyoncé mostrava que não se curvaria a um homem, seja lá quem ele fosse.

      Aqui vale um parêntesis: Ela não se rebaixa nem se esse tal “homem” for o marido-poderoso Jay Z. Alguns tabloides dão conta de que Jay Z teria traído Beyoncé e que a cantora estaria prestes a pedir o divórcio. Com nenhum desses rumores sendo confirmado pelo casal, resta aos fãs interpretarem que Beyoncé não está realmente bem com o marido – isso pode ser constatado por meio das músicas (como “Don’t Hurt Yourself” ou “Sorry” –veja as respectivas letras aqui).

      Quando a cantora anunciou que seu álbum Lemonade teria um forte apelo social, ninguém se dava conta da pancada que viria por aí. Em um mesmo trabalho, Queen B fala sobre a violência policial em relação aos negros, defende o poder feminino e ainda cita Martin Luther King, ao afirmar que as mulheres negras são as pessoas mais vulneráveis dos Estados Unidos. Tudo isso junto a um trabalho impecável de melodias e composições, recheadas de referências dos mais variados estilos musicais. O público esperava por um álbum consistente e de qualidade ímpar – e não se decepcionou.

      A cantora lançou na última semana o Lemonade – que ainda está disponível apenas pela plataforma Tidal, da qual é sócia junto com Jay Z. O disco veio com um filme impecável, transmitido pela HBO: o vídeo conta com uma edição delicada, quase cinematográfica, e ajuda o espectador a entender melhor cada música, em um processo de quase imersão. É dar o play e se permitir entrar no universo confessional da artista.

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      Mas, como que interessa aqui é o álbum em si, vale dar destaque a alguns pontos deste trabalho único de Beyoncé. Não vamos nos focar no apelo social ou nas indiretas a uma possível traição de Jay Z por entendermos que isso já vem sendo bastante debatido. O álbum da cantora é tão rico em suas nuances que resolvemos mostrar por que o trabalho promete conquistar os mais variados públicos, desde os “roqueiros de plantão” até o nicho mais alternativo. E a versatilidade da cantora vai muito além das participações especiais que surgem em Lemonade: do rock de Jack White ao rap de Kendrick Lamar, passando pelo pop-atualíssimo de The Weeknd ao eletrônico-indie de James Blake: todos os estilos têm espaço na bagagem musical de Queen B.

      “Um projeto conceitual baseado na jornada de toda mulher por seu autoconhecimento e sua cura”: é assim que o Tidal classifica o álbum ‘Lemonade’

       

      Referências: Os samples

      O que chamou a atenção de um ouvinte mais atento foi o uso de vários samples ao longo do disco. O mais claro (e mais surpreendente) é o da música “When the Levee Breaks” , de ninguém menos que Led Zeppelin, usado na faixa “Don’t Hurt Yourself”, em parceria com Jack White.

       

      Esta faixa, aliás, é uma verdadeira pancada sonora: as batidas de rock misturadas a uma Beyoncé poderosa, que vocifera a um marido traidor: “Who the fuck do you think I am?/You ain’t married to no average bitch boy” são de tirar o fôlego. Veja a tradução aqui.

       

       

      Outros samples que merecem destaque são o da banda de rock psicodélico, Kaleidoscope (na faixa “Freedom”, uma crítica ao preconceito aos negros com participação de Kendrick Lamar) e do OutKast ( “SpottieOttieDopaliscious”, na música “All Night”). 

      O uso de samples tão variados é um indício de um álbum consistente, mas ao mesmo tempo mesclado em relação às músicas: de fato, nenhuma faixa é igual à outra. As influências do rock clássico, passando pelo psicodélico, junto às já esperadas batidas de rap e r&b dão o tempero que faz deste álbum uma experiência totalmente nova e não-entendiante ao ouvinte.

      Beyoncé-alternativa


      Outro ponto que chama a atenção no disco é que ele coloca a Queen B de vez no patamar de “cantora cool”. Nota-se uma clara tentativa de atrair um público mais alternativo, que geralmente é esquecido pelos grandes produtores pop, mas se mostra importante por estar sempre atento às novidades no universo musical.

      Para atingir este nicho, a cantora usou de alguns artifícios: um deles foi  convidar James Blake como uma das participações especiais. O cantor, ídolo no universo alternativo (e pouco conhecido no maistream) é conhecido por misturar batidas eletrônicas totalmente desconstruídas e improváveis a um vocal melódico e suave.

      Ele domina a faixa “Forward” – que também merece uma audição mais atenta, pois apresenta bem o estilo de James Blake a um público mais pop.

      A bela declaração de amor de Karen O, do Yeah Yeah Yeahs também é citada pro Beyoncé. Na faixa “Hold Up”, além de flertar nos beats com a música jamaicana, a cantora cita no refrão o verso “they don’t love you like I love you”, marcante trecho da música “Maps”, da banda de post-punk revival. Os integrantes, aliás, fizeram questão de dizer que estavam “lisonjeados” por ser citada por ninguém menos que Beyoncé.

      Vale destacar também que “Hold Up” conta com colaboração de Ezra Koenig, da banda indie Vampire Weekend, que ajudou na composição. A música foi idealizada por Diplo: aqui, outra curiosidade interessante. Diplo, vale lembrar, é  grande nome por trás da música eletrônica atual, o que torna a canção uma verdadeira mistura de influências.

      Ouça abaixo a versão demo da música, na voz de Ezra:

      A referência à “My Girls”, da banda Animal Collective, na faixa “6 Inch” (com The Weeknd), também chama a atenção. Beyoncé parece fazer uma paráfrase dos versos “I don’t mean to seem like I care about material things”. O Animal Collective, vale dizer, já foi classificado por alguns críticos como o “futuro da música”, ao misturar pop, indie e batidas eletrônicas de uma maneira inovadora, o que torna o grupo tão difícil de ser categorizado em um estilo específico.

      Apesar de o produtor da cantora já ter afirmado que a referência ao Animal Collective foi “acidental”, o que importa é notar que Beyoncé e seus produtores fizeram um verdadeiro trabalho de imersão ao longo do processo criativo, ouvindo os mais variados estilos para ter como resultado um álbum original e único em sua essência.

      E por falar em estilos variados, destaca-se também a faixa “Daddy Lessons”, em que um riff de guitarra “roots” da música country faz um casamento perfeito com o R&B e até com o pop dos anos 50, de bandas da gravadora Motown. Ou em “All Night”: as batidas leves inspiradas no soul prometem conquistar qualquer ouvinte dessa canção, que foi produzida por Diplo. Não estranhe se quiser ouvi-la no repeat.

      Vale concluir que a cantora pode ser reconhecida fora do pop-mainstrem não apenas pela escolha das participações especiais ou pelo uso de samples. Beyoncé, ao se abrir para criar canções que passeiam pelos mais variados estilos, é o retrato claro da complexa música contemporânea, que cada dia mais busca se afastar de rótulos. O rock não morreu, como muitos atestam: ele vive e renasce a cada canção que mistura o estilo a outros elementos musicais – ele vive no pop, no eletrônico, no alternativo ou no mainstream. E Beyoncé prova isso vivamente. Ponto para ela.