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      Especial dia do rock: os anos 90

      7 de julho de 2016 9:45 Por Damy Coelho

      Todas as meninas queriam ser tão descoladas quanto Gwen

      Apesar de alguns conflitos isolados, como a Guerra do Golfo, os últimos anos do século XX foram marcados por um certo “sossego” na política, que acabou refletindo nas representações culturais da década. Após a queda do Muro de Berlim, houve um sentimento generalizado de união entre as pessoas e também uma necessidade de dar valor às coisas mais simples. A estagnação econômica que marcou a década também influenciou para que todo o exagero dos anos 80 sumisse aos poucos, dando lugar a um estilo de vida mais simples.

      As mulheres sentiram necessidade de fincarem sua representatividade no mundo da música. Desde o pop empoderador das Destiny’s Child e das descoladas Spice Girls e Gwen Stefani, do No Doubt, até o novo feminismo idealizado por Kathleen Hanna e o Bikini Kill, um movimento novo, fresco e que era intrisicamente ligado ao punk.

      Estudantes retomam os 'anos rebeldes' em protesto contra Collor

      No Brasil, a tão recente democracia dava passos curtos, muito pelos escândalos econômicos que levaram ao pedido de impeachment do presidente Collor, em 92. Pouco depois, Os Paralamas do Sucesso cantavam que “Luiz Inácio falou, Luiz Inácio avisou: são 300 picaretas com anel de doutor”, dando voz às denúncias feitas pelo então candidato à presidência, Lula, que denunciava um Congresso corrupto em meio ao escândalo conhecido como “Anões do Orçamento”. Novamente, o rock andava de braços dados com as denúncias sociais – uma clara herança do punk rock.

      Houve também uma mudança importante na indústria fonográfica: nas prateleiras das lojas de música, os vinis e fitas K7 iam aos poucos sendo substituídos pelo compact disk (o bom e velho CD), uma tecnologia inovadora para a época, que comportava um som de extrema qualidade em pouco espaço físico. Este processo de mudança não foi tão fácil no Brasil, já que o país passava por uma grave crise econômica e pela pior inflação de sua história. Investir o dinheiro em música não era lá uma prioridade dos brasileiros quando o preço dos produtos da cesta básica iam às alturas nos supermercados.

      O CD fez com que o vinil desaparecesse das prateleiras das lojas de disco

      Se o cenário não era favorável à música em geral, o rock’n’roll foi o mais prejudicado. Enquanto o resto do mundo se rendia ao modelo de girls e boybands extremamente pops, nas rádios nacionais só dava pagode e axé, os estilos que dominavam todas as festas. Ao contrário da década anterior, o rock não era tão rentável em meados dos anos 90, após o fim da febre grunge (vamos falar sobre ela mais tarde).

      Mesmo sem espaço para o rock, algumas gravadoras nacionais resolveram apostar e alavancar a carreira de bandas até então conhecidas apenas em um pequeno nicho, que hoje podem ser consideradas a “salvação” do estilo na década – bote aí nomes que se beneficiaram com os recém-criados selos de grandes gravadoras, que “pescavam” estes novos talentos: Raimundos, Planet Hemp, Charlie Brown Jr. e a grande banda responsável por colocar o rock de volta ao topo das paradas: a irreverente Mamonas Assassinas – cujos integrantes, infelizmente, tiveram uma carreira tanto meteórica quanto curta. Investir em bandas “de garagem” foi um risco a ser corrido, que no fim das contas, acabou valendo a pena: foram bandas como essas que mantiveram o rock forte no Brasil.

      Chico Science e a invasão do manguebeat

      Quebrando a hegemonia do sudeste, viajemos para o Recife, que estava no ápice de sua efervescência cultural: nessa época, um certo Chico Science se uniu à sua Nação Zumbi e ao Mundo Livre S/A para criarem o manifesto do “manguebeat”, movimento que visava valorizar os processos culturais do povo recifense e que acabou ganhando todo o Brasil – para a nossa sorte. Infelizmente, a década ainda reservava mais uma perda irreparável. Quando o manguebeat colhia os frutos ao redor do país, chegando ao seu ápice, o grande mestre do movimento falecia repentinamente, em um acidente de carro. Perdíamos Chico Science precocemente, em 1997, mas o manguebeat não deu sinais de perder a sua força.

       

      Guitarras altas, all star e camisa de flanela: o grunge é cool

      Estilistas se inspiraram no estilo de pessoas como Kurt e Courtney para atingir os jovens

      Retomando o papo da estagnação econômica, vale dizer que a moda também captou este momento mais ‘simples’ da década: saem os laquês, maquiagens exageradas e calças brilhantes de couro, marca do hard rock nos anos 80, e entram as calças jeans confortáveis, o cabelo bagunçado, as camisas de flanela e um estilo mais “largado”, que agora seria considerado “cool”. Em relação ao mundo da música, você já deve ter sacado que todas essas referências são características do grunge – talvez a maior febre entre os jovens na década, em se tratando de rock’n’roll.

      O termo foi usado pela primeira vez por Mark Arm, que viria a ser vocalista do Mudhoney, uma das mais tradicionais bandas do estilo. Em 1981, quando ele ainda tocava na Green River, Mark usou o termo “grungy” (lixo, sujeira) em um fanzine, para designar ironicamente sua própria banda na época, o Mr. Epp and the Calculations: “É puro barulho! Puro Grungy! Puro lixo!”, escreveu.

      Na década seguinte, as bandas que participaram do mesmo período efervescente de Seattle estavam saindo dos “inferninhos” da cidade e ganhando cada vez mais espaço, até mesmo na mídia, que se aproveitou para usar o termo grunge para designar bandas como Soundgarden, Alice In Chains, Pearl Jam e Nirvana – mesmo que essas bandas não fossem necessariamente influenciadas pelos mesmos estilos musicais e sequer se reconhecessem como um movimento de união, ou como pertencentes a uma mesma ‘cena’.

      O grunge se tornou uma febre tão grande que deixou de representar um estilo musical para virar o símbolo de uma nova geração. Dos desfiles de moda de estilistas como Marc Jacobs ao comportamento dos jovens, muitos prezavam por uma vida mais simples e tudo o que queriam era ficar no quarto assistindo MTV ou ouvindo os k7s de suas bandas favoritas – havia também aqueles que até mesmo pegavam suas guitarras para formar suas bandas de garagem inspiradas nos grandes ídolos.

      Revista aborda o estilo da atriz Winona Ryder: "meio gunge"

      Mas a febre grunge foi tão intensa quanto rápida: com o suicídio de Kurt Cobain, em 1994, os jovens ficaram de luto e uma parte da história do grunge foi junto. Pouco antes, um acontecimento em específico foi crucial para a derradeira decaída do estilo – o  famoso desfile de Marc Jobs sobre o ‘grunge’, em 1992, ajudou a aniquilar o movimento.  Tudo o que a moda queria era captar o jovem da época, que não se identificava com os desfiles e não podia (e nem queria) gastar todo o seu salário em uma loja de grife, mas o tiro de Marc saiu pela culatra: camisas de flanelas que eram compradas a centavos em brechós por nomes como Kurt Cobain, Eddie Vedder e Courtney Love, de repente estavam custando $200 dólares na grife do estilista.

      Além disso, tudo o que o jovem ‘grunge’ não queria ser é fashion, ou um  símbolo da moda, do mainstream e do mercado econômico que sugava as vidas de seus pais. O desfile desagradou a todos que faziam parte do movimento (que sequer foi reconhecido assim pelas bandas e público) e acabou morrendo assim que virou popular. Se ser grunge não era sobre grande. Muito menos sobre rótulos. Era no mínimo incoerente que o estilo tenha sido reconhecido e batizado pela própria mídia e pela indústria da moda, afoita por conquistar a qualquer custo o ‘jovem descolado’ que ditava tendência mesmo sem querer.

      A morte de Kurt foi a mais representativa na época, mas marcou uma fase difícil para os jovens músicos, que se afundavam nas drogas em detrimento de suas promissoras carreiras na música. O vício da heroína nos levou Kurt, a baixista do Hole, Kristen Pfaff, além de Shannon Hoon (vocalista do Blind Melon) e Bradley Nowell, vocalista do Sublime. Esses são só alguns dos vários talentosos artistas que nos deixaram tão jovens e tinham tanto ainda a oferecer ao rock. A hegemonia da heroína marcou muito a juventude da época, tanto que a indústria fashion (novamente ela) se aproveitou do fato macabro para criar uma nova tendência. Nascia o “heroin chic”, a moda que era positiva por um lado, por mostrar a beleza de garotas assimétricas e fora do padrão de super modelos (como Chlöe Sevigny) sem os excessos de maquiagens e produções (que massacravam a autoestima das adolescentes comuns nos anos 80), mas terrível ao caracterizar modelos em editoriais de revistas como se elas tivessem acabado de injetar a droga. A talentosa e icônica Kate Moss, que apenas iniciava a sua carreira, em 1996, foi taxada como ícone do estilo, o que alavancou a sua carreira.

      Se a moda era forte nos anos 90, Kate Moss era o nome soberano

      Como visto, até os fatos mais tristes do rock viravam tendência: não havia maneira melhor de representar o jovem da década do que com algo que estivesse intrinsecamente ligado ao rock’n’roll.

       

      O rock no cinema

       

      Nunca ter uma banda foi tão descolado e os filmes da época captaram bem esse momento. Vida de Solteiro (1992), por exemplo, retratava a vida e o tédio dos jovens de Seattle, e mostrava uma banda até então conhecida apenas na icônica cidade: assista e surpreenda-se ao ver ninguém menos que os integrantes do Pearl Jam atuando, interpretando um bando de adolescentes de camisas de flanela e bermudas largas que tinham uma banda de garagem – ou seja, interpretando eles mesmos na época.

      Single (Vida de Solteiro), filme de 1992

      Ou o delicioso “Caindo na Real” (1994), do então jovem diretor Ben Stiler, com Winona Ryder –  apenas a garota mais legal da década. O filme representa as necessidades e desafios da geração X, que preferia trabalhar com o que gosta ou com aquilo que faz uma diferença para a sociedade, mesmo que ganhando pouco. Eram artistas, videomakers, jovens recém-formados e extremamente talentosos. Era uma geração que sonhava em quebrar os laços com a hipocrisia da “vida pelo dinheiro” pregada pelos seus pais workaholics, os baby boomers: no fim das contas, eram apenas jovens sonhadores – que ouviam Nirvana, U2, se vestiam de maneira simples e despojada e desejavam fazer sucesso com sua banda de rock.

      Com certeza, foi uma das décadas mais marcantes para o estilo. Não à toa, estamos vivendo em 2016 um revival desta década, seja na música ou na moda. Os anos 90 foram cool e adorados por muitos – e não é para menos.

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