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      #resenha: The Beatles: Eight Days a Week

      3 de fevereiro de 2017 9:56 Por Damy Coelho

      O longa The Beatles – Eigth Days a Week é o grande lançamento musical desta semana no país. Dirigido por Ron Howard (Apollo 13/Uma Mente Brilhante), o filme retrata os primeiros anos de carreira da maior banda de todos os tempos, até 1966. O motivo é simples: o ano é um divisor de águas na carreira da banda, quando a febre da Beetlemania dá espaço para os experimentalismos e a inovação do eterno “quarteto de Liverpool”, marcado pelo período de produção do icônico Sgt. Peppers Lonely’s Heart Club Band.

      O filme se propõe a retratar justamente o período anterior, que é romantizado pelos próprios Paul, John, George e Ringo em entrevistas como a fase em que o grupo era mais unido, “como se fossem um só”. A escolha do figurino – o mesmo terno e o mesmo corte de “cuia” – representa essa visão da banda como uma unidade.

      Talvez por isso, há um cuidado da produção de tentar dar destaque para os Beatles enquanto Beatles – apesar da individualidade de cada um, o endeusamento afetado a Paul e Ringo quase não tem espaço no filme. Além disso, cenas de entrevistas e áudios nos estúdios da E.M.I mostram um pouco do processo criativo da banda naquela época, durante as gravações dos álbuns, que ocorriam quase em escala industrial. Um prato cheio para os fãs.

      E por falar em prato cheio, os fãs mais assíduos podem ir ao cinema atentos às fotos e áudios inéditos de entrevistas com os Beatles – que é o grande diferencial anunciado pela produção. Porém, o filme vai bem além disso, deixando o material inédito acessado por Ron Howard em segundo plano.

      Here, There and Everywhere

      O fenômeno da Beetlemania – que é o grande mote do filme – é retratado de maneira fiel e concisa. As cenas das mocinhas desmaiando e gritando sem parar pode ser até engraçada para uma geração que já nasceu acostumada com o “endeusamento” de ídolos da música, mas é sempre importante lembrar que o Beatles foi o grande responsável pelo nascimento dessa cultura pop do showbizz: além de serem a banda mais influente do rock, os Beatles iam além da música e assinavam até linha de chicletes.

      Mas o grande diferencial de The Beatles – Eight Days a Week é o cuidado que o diretor teve de não abordar “mais do mesmo”. Se todos sabem alguma coisa sobre o fenômeno da Beetlemania, o jeito então é mostrar como esse fenômeno influenciou a cultura norte-americana. Afinal, poucas vezes uma banda da Inglaterra exerceu tanta influência no comportamento dos jovens dos Estados Unidos. Em uma época que o país se chocava com o assassinato do carismático presidente J. F Kennedy e debatia sobre a bruta separação e exclusão dos negros em alguns estados do sul, o Beatles exercia involuntariamente o papel da “banda que uniu todas as tribos” (citando Dinho Ouro Preto).

      O Beatles é fruto da geração baby boomer, as crianças nascidas após o período de guerra e que, no auge dos anos 60, dominaram a economia e foram alvos da indústria cult. Nunca antes os adolescentes foram o centro das atenções do mercado – e o centro das atenções daquelas adolescentes eram os Beatles. Porém, vale lembrar que o conservadorismo ainda pairava nos anos 60 – meninas e meninos raramente dividiam um mesmo espaço, por exemplo.

      É marcante o corte de cenas que mostra as mocinhas enlouquecidas em um show dos Beatles dentro de um cinema, para logo depois mostrar o estádio do Liverpool cheio de marmanjos cantando “She Loves You” a plenos pulmões, antes de uma partida de futebol. E, quando começa a bater o incômodo de notar que quase não havia negros nos shows da banda, uma famosa atriz negra (não iremos contar, don’t want to spoil the party) vem para explicar o que representava o Beatles para a sua versão adolescente: “Eles eram tão legais, eu me sentia próxima deles, como se fosse uma amiga. E eles eram brancos!”. Mesmo no período em que os EUA vivia o auge do preconceito racial, que chegou a separar os negros dos brancos em vários contextos sociais, os Beatles pareciam a única coisa capaz de unir jovens de contextos tão diferentes: as mocinhas ricas, os marmanjos do proletário inglês e os negros excluídos da sociedade norte-americana.

      A Beetlemania, enfim, foi capaz de unir todas as classes sociais. Para além de mulheres, homens, brancos, negros ou asiáticos, todos eles eram só adolescentes que tinham uma coisa em comum: o amor pela música feita por quatro garotos da mesma idade que eles. Este é o grande mérito do fenômeno (indo muito além da importância mercadológica da coisa). E deixar essa importância social escancarada aos fãs mais jovens é o grande mérito de The Beatles – Eigh Days a Week. Vale bancar o ingresso do cinema.

      The Beatles – Eight Days a Week
      está em cartaz nos cinemas brasileiros dos dias 02 a 05 de fevereiro. Mais informações no site beatlesnocinema.com.br.