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      O guia definitivo pra você conhecer a história e os tipos de samba

      15 de setembro de 2020 13:25 Por Gustavo Morais

      Segundo o mestre Dorival Caymmi, “quem não gosta de samba bom sujeito não é”. Nascido da união dos batuques dos tambores africanos com ritmos mais populares nas grandes cidades, esse estilo já contabiliza mais de 100 anos de história.

      tradição do samba começou em SP

      Precursores do samba da Barra Funda, em São Paulo (Foto/Internet)

      Movimentos artísticos vêm e vão, mas o samba continua sendo um dos pilares mais fortes da cultura brasileira. Por essas e outras, o texto hoje é um panorama acerca desse recorte tão emblemático da música feita do lado de cá da Linha Do Equador. Além de conhecer um pouco sobre essa história, vamos ter uma experiência com alguns dos vários tipos de samba.

      Na real, a intenção é impulsionar os seus laços com a cultura brasileira. Por tanto e para tanto, meus amigos e amigas, se preparem! Depois desta nossa conversa, não vai ter mais ninguém, como disse Caymmi, “ruim da cabeça ou doente do pé” ;)

      Vamo nessa, na palma da mão, porque é tudo nosso!

      O que significa samba?

      Há algumas versões acerca da etimologia do termo “samba”. Uma delas diz que é originário de uma das muitas línguas africanas, possivelmente do quimbundo, onde “sam” significa “dar”, e “ba” quer dizer “receber” ou “coisa que cai”.

      Também é contada uma versão que diz que a palavra deriva da palavra semba, que significa umbigada.

      Uma breve história do samba

      Considerado peça chave na cultura popular brasileira, o samba é uma dança e um estilo musical que surgiu em algum momento do século XIX. Chegou por aqui por meio das mentes e corações dos escravos africanos, e provém da fusão entre as culturas africana e brasileira. Em seus primórdios, como matrizes sonoras, o samba apresentava traços das estruturas musicais europeias e africanas.

      No início, o estilo marcou forte presença nos estados do Maranhão, Minas Gerais, São Paulo e Bahia. O jogo virou, no entanto, com a maior migração da população negra para a cidade do Rio de Janeiro. Essa espécie de êxodo promoveu o diálogo do samba com estilos musicais populares entre os cariocas, como a polca, o maxixe, o lundu e o xote.

      Donga, um dos principais personagens da história do samba (Foto/Internet)

      O primeiro grande marco da história moderna e urbana do samba ocorreu em 1916, no Rio de Janeiro, com o registro em disco da música Pelo Telefone, na voz de Donga, considerado o primeiro samba gravado no Brasil. A gravação contou com participação de João da Baiana, Pixinguinha, Caninha, Sinhô, entre outros.

      Como não poderia ser diferente, a história seguiu seu curso e o samba vem se reinventando desde então. Ao longo desta nossa conversa, você conhecerá as vertentes e variantes desse nosso patrimônio cultural!

      Os tipos de samba

      Assim como todos os outros gêneros de música, o samba tem suas variações. É tudo uma questão de inovação e adaptação à uma realidade ou outra das mentes criadoras. A seguir, você confere as características de 10 estilos de samba.

      1. Samba de roda

      Com origens na Bahia, por volta de 1860, essa é a modalidade mais tradicional do samba. De acordo com o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), o samba de roda é patrimônio imaterial da cultura brasileira.

      Samba de roda resiste

      O samba de roda resistiu ao teste do tempo (Foto: IPHAN)

      O samba de roda é estritamente ligado ao culto aos orixás e caboclos, à capoeira e à comida de azeite. A cultura portuguesa está também presente na manifestação cultural por meio de instrumentos musicais e do idioma cantado nas letras das canções. A música é associada a uma dança que, por sua vez, está ligada à capoeira. No que tange a parte instrumental, é tocada por um conjunto de pandeiro, atabaque, berimbau, viola e chocalho, acompanhado principalmente por canções e palmas.

      O samba de roda resistiu aos processos de urbanização e modernização do estilo. À sua maneira, ao longo dos dois últimos séculos, vários artistas mantêm acesa a chama dessa forma de samba.

      Grandes representantes: Dona Edith Do Prato, Dudu Nobre e Mariene de Castro.

      2. Samba-canção

      Surgiu no final da década de 1920, em meio aos processos de modernização do samba urbano do Rio de Janeiro. Naquele momento, o samba iniciava seu processo de gradual distanciamento do maxixe.

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      Nelson Gonçalves, o boêmio, também teve sua fase samba-canção (Foto/Internet)

      O samba-canção possui um andamento moderado (o mais lento dentro das vertentes do moderno samba urbano) e tem um olhar mais elaborado sobre a melodia. As letras são centradas em temáticas de amor, solidão e a chamada “dor-de-cotovelo”, que hoje muitos entendem como “sofrência”.

      Com a chegada da bossa nova, no final da década de 1950, o samba-canção perdeu um pouco do terreno dentro da música brasileira. Porém, sua importância está imortalizada em um acervo de obras que sempre são regravadas.

      Grandes representantes: Noel Rosa, Nelson Gonçalves, Cartola, Nelson Cavaquinho e Ataulfo Alves.

      3. Samba-enredo ou samba de enredo

      Surgiu no Rio de janeiro, durante a década de 1950. Foi criado especificamente para os desfiles das escolas de samba no Carnaval. Tende a seguir temas sociais ou culturais, e conduz a coreografia e a cenografia que a escola apresenta durante o desfile.

      Embora o primeiro samba-enredo gravado ter sido Exaltação a Tiradentes, pelo cantor Roberto Silva, com o título reduzido para Tiradentes, para o Carnaval de 1955, considera-se como primeiro samba-enredo da história a música que a Unidos da Tijuca apresentou no desfile de 1933.

      Mocidade indepéndente

      Parte da equipe que conduz a parte musical de uma escola de samba (Foto: Internet)

      Por mais que a maioria das escolas toquem um samba mais agitado, o sambinha calmo e/ou romântico também é bem-vindo! Como as escolas de samba tradicionalmente se apresentam com uma quantidade muito grande de componentes, em geral usam uma batida mais rápida para acelerar o movimento dos foliões na avenida e manter a harmonia do conjunto.

      Grandes representantes: Silas de Oliveira, Neguinho de Beija-Flor, Paulinho Mocidade e Mano Décio da Viola.

      4. Samba carnavalesco ou marchinhas

      Difere do samba enredo por ser mais comum fora dos desfiles das escolas de samba. São as marchinhas popularizadas nos bailes blocos de rua, como Abre Alas, Aurora e Cachaça Não É Água e, claro, Chiquita Bacana.

      Dentre os tipos de samba, esse é o menos brasileiro. Descendente das marchas populares portuguesas, esse estilo é todo trabalhado nas melodias simples e letras de duplo sentido. A partir da década de de 1920, as marchinhas receberam influência da música norte-americana e, consequentemente, ganharam andamentos mais acelerados.

      As marchinhas foram muito populares até os anos 60. De lá pra cá, perderam espaço paro o samba enredo e, sobretudo, para a glamourização do Carnaval.

      Representantes: Lamartine Babo, Ary Barroso, Chiquinha Gonzaga, Braguinha e Emilinha Borba

      5. Samba-exaltação

      Surgido em 1939, por meio do compositor mineiro Ary Barroso, o samba-exaltação é conhecido pelo teor ufanista das letras. De forma consciente ou não, os representantes desse tipo de samba ajudaram a enaltecer as propostas nacionalistas e autoritárias do Estado Novo, regime político capitaneado por Getúlio Vargas, que pregava um “Brasil grande”.

      O andamento é médio e a instrumentação é fundamentada em instrumentos de corda e percussivos. Quase sempre acompanhados de orquestras, os intérpretes cantavam letras que exaltavam as belezas do país. Décadas depois do fatídico 1939, os contornos patriotas do samba-exaltação foram vistos em músicas de Jorge Ben Jor, Os Incríveis e Dom e Ravel.

      Embaixadores da exaltação: Ary Barroso, Alcyr Pires, João Gilberto e Francisco Alves.

      6. Samba de gafieira

      Esse estilo é uma dança de salão, com origens no começo do século XX, toda trabalhada nas coreografias e ritmos mais agitados. No lado musical da coisa, as raízes da gafieira estão no maxixe, no choro e no samba-breque.

      Já ouviu falar da típica figura do “malandro”? Sim, estou falando do sujeito que usava terno branco, sapatos preto e branco, ou marrom e branco; e por debaixo do paletó, camisa preto e branca ou vermelha e branca, listradas horizontalmente; e o clássico chapéu. Esse é o protagonista do samba de gafieira! Na hora da dança, o homem conduz a sua dama, e nunca o contrário. Os passos são guiados por malandragem, proteção, exposição a situações surpresa, elegância e ritmo.

      7. Partido-alto

      Esse estilo surgiu no início do século XX, dentro dos processos de modernização do samba urbano do Rio de Janeiro. Segundo estudiosos, é a forma de samba que mais se aproxima da origem dos batuques angolano, congolês e das regiões mais próximas.

       rainha do partido alto

      Clementina de Jesus, a rainha do partido alto (Foto/Divulgação)

      De acordo com a Enciclopédia da Música Brasileira, o partido-alto concilia formas antigas e modernas de samba, “desde os versos improvisados à tendência de estruturação em forma fixa de canção, e que era cultivado inicialmente apenas por velhos conhecedores dos segredos do samba-dança mais antigo”.

      Com letras improvisadas, falam sobre a realidade dos morros e das regiões mais carentes. O partido-alto da década de 1970 serviu de embrião para o que viria a ser o pagode de raiz, um tipo de música direcionada por instrumentos como banjo e tantã.

      Grandes representantes: Clementina de Jesus, Candeia, Martinho da Vila e Zeca Pagodinho.

      8. Samba de breque

      Os “breques” são pausas para fala. Os sambistas desse estilo costumam incluir nas canções discursos engraçados, que remetem à lendária “malandragem do samba” ou até mesmo críticas acerca da sociedade ou do comportamento do indivíduo.

      “Brequeiros” icônicos: Moreira da Silva, Luiz Barbosa, Jorge Veiga e Ciro Monteiro.

      9. Sambalanço

      Tendo como base inicialmente como base a trinca instrumental piano-baixo-bateria, esse é um tipo de samba amplamente influenciado por bossa nova, blues e rock and roll. O sambalanço surgiu em meados da década de 1950 e teve seu ápice nos anos 60, no Rio de Janeiro, graças à ascensão das boates e casas noturnas.

      Algumas letras flertam com o samba-exaltação, mas também há forte presença de temáticas extrovertidas e quase sempre bem-humoradas. Outra característica marcante é a presença de onomatopeias – como “esquindô”, “teleco-teco”, “sacudim” ou “ziriguidum” – para se referir ao suingue, ao balanço do ritmo.

      Ícones do sambalanço: Sergio Mendes e o conjunto Brazil 66, Jorge Ben, Elza Soares e Miltinho.

      10. Samba-joia

      Trata-se de um termo cunhado por alguns críticos musicais, na década de 1970, para designar um tipo de samba supostamente de qualidade duvidosa. Também chamado de “sambão”, o estilo é caracterizado por reunir elementos de samba, soul music, bolero e jovem guarda.

      O que pouco se comenta, no entanto, é que essa vertente do samba abriu portas para uma geração de artistas que foi muito bem recebida por pessoas das mais variadas classes sociais. A turma do sambão, inclusive, recolocou o estilo nas principais emissoras de rádio e TV do país, sendo responsáveis por vendas expressivas do gênero na década de 1970.

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      Luiz Ayrão, autêntico “bamba” do samba-joia (Foto/Divulgação)

      Passadas mais de quatro décadas, o samba-joia ainda sofre rejeição no meio acadêmico. Alguns estudiosos mais puritanos, inclusive, colocam na conta do sambão o surgimento do pagode romântico da década de 90.

      Grandes representantes: Benito Di Paula, Wando, Agepê e Luiz Ayrão.