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      Porque o Maroon 5 nunca será o melhor substituto para Lady Gaga no RiR

      15 de setembro de 2017 18:52 Por Damy Coelho

      Lady Gaga: cancelamento do show no Rock In Rio deixou seus ‘little monsters’ devastados (Reprodução)

      A notícia de que Lady Gaga cancelou sua participação no Rock In Rio pegou todo mundo de surpresa. A cantora seria a apresentação principal nesta sexta (15), noite de abertura do festival. Ou seja, boa parte dos pagantes podem ter garantido o ingresso exclusivamente para vê-la, o que é esperado de qualquer headliner.

      Com o cancelamento do show, o RiR anunciou que o Maroon 5 irá substituí-la. Detalhe: a banda já vai ser atração principal no evento no sábado (16).

      Mas isso não quer dizer que o problema foi resolvido, por um motivo muito simples: Apesar de Maroon 5 e Lady Gaga pertencerem a um mesmo gênero – a música pop – a semelhança entre os artistas para por aí.

      Para Terence Machado, crítico musical e apresentador do programa Alto-Falante, essa substituição resolve a questão apenas para os produtores, enquanto o público de sexta fica carente de uma atração que, de fato, os represente:

      “É a opção tapa-buraco, com um artista que já estava no line up e faz uma apresentação a mais. Isso deixa completamente manca a programação original para esse dia específico de evento. Até porque o Maroon 5 não está substituindo uma atração qualquer. Seria nada menos que a principal, né?”, questiona.

      Por isso, não dá mesmo para dizer que o buraco foi totalmente tampado. Pelo contrário.

      Lady Gaga >>>>> abismo >>>>> Maroon 5

      Lady Gaga é ultra pop e performática. Foi considerada a “nova Madonna” numa época em que ”ser a próxima Madonna” ainda era o ápice onde podia chegar uma cantora pop.

      Para além disso, a cantora tem um público fiel que a acompanha muito pelo seu posicionamento em relação à causa LGBT e à representação da mulher. É como se Lady Gaga representasse essas pessoas e, mais que isso, como se lutasse junto delas.

      O mais coerente, de um ponto de vista mercadológico, seria tentar colocar um substituto que atendesse a um público semelhante ao de Gaga. Mas por que o Maroon 5 não atende a esses quesitos?

      Sim, o Maroon 5 é pop, é fresh, é a banda queridinha do público desde o seu primeiro disco, lá em 2002. Além disso, é inegável o carisma dos integrantes, especialmente de Adam Levine.

      Mas como carisma por si só não segura público, é necessário refletir sobre essa questão:  justamente por ser uma banda queridinha, quase impossível de angariar haters,  o Maroon 5 “escorrega” como a melhor escolha para substituir uma estrela pop do porte de Gaga.

      O grupo não levanta bandeiras, não se envolve em questões políticas ou opiniões sociais. Seu público pode ser classificado como “neutro”: com segurança, podemos dizer que Maroon 5 e o Skank (que, não por coincidência, também toca no sábado) seria o paralelo perfeito entre bandas que têm públicos mais ou menos semelhantes. Já Lady Gaga e Maroon 5…

      (Not) made in Brazil

      Uma análise superficial já seria capaz de evidenciar o abismo existente entre o direcionamento mercadológico e artístico da Lady Gaga e do Maroon 5:

      Seria representativo escolher uma mulher para substituí-la, refletindo sob o prisma do empoderamento feminino – como já dito, é uma causa apoiada pelo público da cantora. Representativo também escolher alguém que não apenas se “simpatize” com a causa LGBT, mas que a defenda.

      Lembrando que estamos falando do público de uma atração que é headliner. Com a substituição, esse público sai prejudicado. Justamente o público que lotaria a Cidade do Rock nesta sexta (25).


      (acima, um little monster sincero).

      Bernardo Ruas é gerente de marketing da área musical e concorda que o festival deslizou na escolha: “Num momento em que o protagonismo feminino está em alta, seria mais lógico substituir [Lady Gaga] por outra mulher de peso. Não sei se daria pra trazer algum ícone pop de fora à altura da Lady Gaga, mas uma atração brasileira poderia ser uma excelente escolha”.

      Aí, tocamos em outro ponto fundamental: a hesitação de grandes festivais brasileiros em colocar um artista nacional para ser a atração principal de um show. Muito se alega que uma atração daqui não traria o mesmo “peso” para o evento.

      De fato, não é o mesmo peso: as atrações internacionais vêm ao Brasil com uma frequência menor – só a Lady Gaga não toca aqui há mais de 5 anos – o que torna essa expectativa dos fãs um dos grandes motes do evento. Mas pensar no substituto perfeito apenas sob o prisma de “ser internacional e ser pop” não basta – como os próprios fãs da cantora apontaram.

       “Anitta sim, Maroon 5 não”

      Não à toa, os fãs que esperavam Lady Gaga no hotel em que ela se hospedaria – e que já estavam com ingresso garantido para o RiR – foram o primeiro termômetro que comprova a “taxa de rejeição” do Maroon 5 como substituto. Uma reportagem da Globo News registrou um grupo de fãs de Lady Gaga gritando “Anitta sim, Maroon 5 não”.

      Anitta foi “ignorada” pela produção do festival desde o início. “Ignorada”, pois muita gente pensou na cantora como uma atração brasileira forte no dia pop do evento. Menos Roberto Medina, pelo visto. O idealizador do Rock In Rio foi claro ao afirmar que “não se identificava com a música da cantora”.

      À Folha de São Paulo, o produtor se explicou: “Não tenho afinidade com a música dela, não achei que encaixava”, afirmou. Para muita gente, a questão se limita a “Anita veio do funk, e o funk não cabe no Rock in Rio” – mesmo que o festival seja notadamente eclético na escalação do line-up.

      Sobre a opinião de Medina, Anitta se limitou a dizer à Veja: “Se não gosta, não contrata”. E tocou na ferida do preconceito contra o funk, mesmo que Medina não falasse nada diretamente sobre o gênero: “Se eu uso as artimanhas do funk pra fazer o meu show mais divertido, não tem como eu dizer que eu não sou do funk. Eu sou, assumo e tenho o maior orgulho, mas acredito sim que eu tô fazendo outros ritmos, não só o funk.”

      E está mesmo. Nos últimos tempos, Anitta vem fazendo um som mais cosmopolita, recheado de influências internacionais. Ela é versátil: canta em inglês, em espanhol, canta com Maluma e Nego do Borel e transita até para o público sertanejo, na bem-sucedida parceria com Simone e Simaria (Loka foi uma das músicas mais tocadas do país no início do ano). Sobre a investida internacional – e certeira – de Anitta, nós já fizemos até um artigo, aqui.

      Medina mostrou que não está totalmente desinformado sobre a Anitta, tanto que fez questão de frisar: “Ela está indo para um caminho pop que a aproxima mais do Rock in Rio, como a própria Ivete entrou nesse caminho. Não tenho nada contra, estou conversando com ela”, afirmou. Não sem  antes se mostrar surpreso com o já comprovado poder mercadológico que Anitta tem: “Almocei com ela outro dia e fiquei impressionado. Ela é uma empresária, tem uma visão de marketing.” 

      O marketing (totalmente legítimo) de Anitta é mesmo forte e faz com que a cantora tenha conquistado um público que vai muito além do funk, além de ganhar respeito inclusive de figurões como Gilberto Gil, a quem a cantora refere-se como “amigo”.

      Assim como Lady Gaga, Anitta levanta bandeiras: a do funk, do empoderamento e assumidamente da causa LGBT. Ou seja, exatamente as mesmas bandeiras que a aproximam do público da cantora internacional.

      Infelizmente, os fãs da Lady Gaga não terão um substituto à altura para Lady Gaga. Não por incompetência do Maroon 5, mas simplesmente porque a produção não deu a devida atenção para o clamor deste público.

      Como disse o Hugo Gloss:

      Ressalvas

      É incontestável que a produção do evento teve que suar a camisa para tampar o buraco deixado por uma grande atração que cancelou de última hora. Não seria possível, também, contar que uma cantora com a agenda como a da Anitta tivesse disponibilidade para tocar no evento em tão pouco tempo – e, como já visto, essa possibilidade sequer deve ter sido cogitada pela produção.

      A produção do evento garantiu a devolução dos ingressos para quem comprou só para ver a Lady Gaga. Como a maior parte do público do RiR na verdade é de fora do Rio, provavelmente quem já comprou passagens e hospedagens com antecedência opte por aproveitar o evento mesmo assim. Não vamos nos esquecer que um festival do porte do Rock in Rio é uma experiência musical à parte.

      Quem sai ganhando?

      O balanço disso tudo é que o público acaba saindo prejudicado, por não ver o ídolo que espera há 5 anos. A própria Lady Gaga sai prejudicada também – é preciso parar com a síndrome de vira-lata e encarar os fatos: o fandom da Lady Gaga no Brasil é extremamente forte e a cantora sabe muito bem disso. Só mesmo um motivo sério como a saúde a impediria de agradar a essa demanda de mercado que vem daqui.

      Mas quem sai ainda mais prejudicado é o próprio festival, por ter perdido uma atração de peso que pode deixar a abertura deste ano bem fraca em relação às edições anteriores.

      A única que não saiu prejudicada nessa história foi a própria Anitta, que sequer precisa se importar com a aprovação de Roberto Medina, afinal de contas.

      Terence Machado sintetiza: “Se eu fosse a Anitta esnobaria geral, rs. Mesmo se eu pudesse. Porque ela não precisa do RiR. Ainda mais nesse momento da sua carreira”.