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      Música e saúde – Parte II: você conhece a “doença do músico”?

      6 de setembro de 2018 13:34 Por Gustavo Morais

      “Doença do músico é mais comum do que você imagina (Foto/Pexels)

      Conforme combinamos na semana passada, cá estamos com mais uma matéria envolvendo doenças relacionadas ao universo musical. Neste post, vamos falar sobre Distonia Focal do Músico, uma síndrome popularmente conhecida como “a doença do músico”.

      Antes de entrarmos no assunto, precisamos esclarecer o que é Distonia. Trata-se de um distúrbio neurológico caracterizado por movimentos involuntários que podem afetar o corpo inteiro. Como incapacita exercício de práticas com as mãos, essa doença é um pesadelo no universo dos instrumentistas.

      O violonista de flamenco José de Lucía convive a Distonia Focal do Músico. Esse distúrbio causa alterações motoras e compromete o funcionamento do músculos que os músicos mais usam em seu ofício: os dedos, dos pianistas e violonistas; a boca, dos que tocam instrumentos de sopro; e cordas vocais, dos cantores.

      Síndrome também ataca quem toca instrumento de sopro (Foto/Pexels)

      Sobrinho do lendário Paco de Lucía, José descobriu “a doença do músico” no início dos anos 2000, no auge dos 22 anos de idade. Na época, durante o primeiro ensaio para participar de um projeto, com o também violinista Juan Manuel Cañizares, o jovem músico notou uma perda de movimento em um dedo da mão direita.

      Em conversa com o El País, o instrumentista relatou quais foram os primeiros sinais mais evidentes da síndrome. Ele percebeu que havia algo errado com suas mãos durante um concerto em Lisboa. A plateia estava lotada e apenas o holofote que iluminava seu violão quebrava a escuridão.

      Eu não conseguia tocar: o dedo ia para trás. Nunca senti tanto pânico em um palco. Saí daquele trecho como pude e apaguei aquilo da minha cabeça, como uma situação traumática que você não sabe como aconteceu

      Para não se aposentar da música, José de Lucía buscou refúgio no baixo, na guitarra elétrica e no violão tocado com palheta, sem precisar desenvolver técnicas de dedilhados. Posteriormente, o problema se estendeu para a mão esquerda.

      José de Lucía precisou descobriu a Distonia Focal do Músico no ano 2000 (Foto/Facebook)

      Embora tenha controlado os avanços da síndrome, José nunca mais conseguiu tocar um violão flamenco e até hoje deixa a sensação de que guarda algum objeto entre os dedos flexionados.

      Outros sintomas da Distonia Focal do Músico:

      • perda gradual do controle do dedilhado
      • falhas no controle dos movimentos do braço
      • dificuldade/lentidão em passagens rápidas
      • dedo se curvando até a palma da mão ou se elevando e não respondendo à ordem de tocar nas cordas ou teclas
      • músculos não respondem ao estímulo de tocar

      Entendendo as causas da “doença do músico”

      A síndrome não tem origens psicológicas ou psiquiátricas. Trata-se de um distúrbio literalmente neurológico, conforme aponta o Doutor Jaume Rosset Llobet, um dos grandes especialistas em distonia na Espanha. “Não é estrutural. Não é um quadro de isquemia ou esclerose. O que acontece é que a parte cerebral dos automatismos se organizou de forma diferente e não funciona conforme se espera”, afirma.

      Prática em exagero é uma das causas da doença, segundo especialista (Foto/Facebook)

      Ainda segundo o Dr. Rosset Llobet, síndrome pode ter como causa o excesso de prática e eterna busca do músico pela perfeição.

      Quanto mais virtuoso, perfeccionista e rígido for o intérprete, maiores são as chances de que apareça a Distonia. Na música, a aprendizagem se baseia na repetição. Portanto, a própria prática instrumental aproxima [o intérprete] da distonia

      Com base no relato do médico ao El País, nós temos o dever de te recomendar cautela com suas práticas musicais, amigo leitor.

      Tem cura?

      Ao longo das últimas décadas, a medicina tem promovido vários estudos e avanços acerca do combate á Distonia Focal do Músico. Se não há cura definitiva para 100% dos casos, os sintomas podem ser controlados.

      Atuando como ortopedista e médico esportivo, o Dr. Rosset Llobet é especialista no tratamento da doença. Coordenando o Institut de l’Art de Terrassa, na Catalunha, desde a década de 1990, o médico já tratou músicos de vários estilos. Um dos tratamentos sugeridos por ele é o “Sensory Motor Retuning (SMR)”, um processo de neurorreabilitação que tenta minimizar os automatismos errôneos.

      Por sua vez, a equipe de neurologistas da Escola de Medicina Monte Sinai, em Nova Iorque, acredita no uso da a toxina botulínica, também conhecida como Botox. De acordo com o neurologista David M. Simpson, professor da instituição, as injeções podem acalmar os músculos adjacentes e opositores. Desta forma, o paciente consegue controlar o músculo com maior mais liberdade.