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      Música e saúde – Parte III: conheça a Amusia, o “daltonismo musical”

      13 de setembro de 2018 13:05 Por Gustavo Morais

      Aos ouvidos de um portador de Amusia, a música soa de forma ruidosa (Foto/Pexels)

      Não é pequeno o número de pessoas que desafinam até na hora de bater palmas. Menos difícil ainda é conhecer a galera que usa de seus talentos vocais para “estragar” rodinhas de violão. Para uma minoria de indivíduos, no entanto, a música simplesmente não existe. Essa surdez musical se chama Amusia, uma condição rara que independe de inteligência ou das estruturas físicas dos ouvidos.

      Assim como um daltônico não consegue diferenciar algumas cores, os portadores de Amusia não reconhecem os “intervalos musicais”, isto é, não conseguem compreender a diferença entre a frequência de dois sons. Essa discrepância é o fator que nos faz distinguir uma nota da outra e estabelecer relações entre elas. Assim como números formam um calendário, o conjunto dessas notas forma as escalas musicais. Se as notas dessas escalas seguirem as regras de harmonia, uma peça musical é criada.

      O amúsico não consegue relacionar os elementos que formam uma música (Foto/Pexels)

      Em contrapartida, a combinação errada brinda nossos ouvidos com dissonâncias, ou seja, barulhos. Como o amúsico é incapaz de reconhecer qualquer intervalo musical, toda música lhe soa como um amontoado de ruídos. Ele percebe uma canção da mesma forma como um analfabeto absorve um filme legendado.

      Na monografia “Amusia Como Disturbio Auditivo Central na Esclerose Múltipla”, a médica Ana Maria Arruda Lana – também doutora em Patologia – argumenta que a Amusia ocorre de forma congênita ou adquirida. Nos casos congênitos, segundo Lana, a condição “é presente em 4% da população geral”. Por sua vez, a forma adquirida da condição pode ser consequência de derrames ou de esclerose múltipla.

      Distúrbios de processamento musical adquiridos são descritos geralmente em casos de acidente vascular cerebral (AVC) isquêmico ou hemorrágico, como mostrado por Griffiths, Rees & Green (1999) em revisão da literatura dos anos 80 e 90 sobre transtornos do processamento de sons complexos associados a lesões cerebrais.

      Na vida do amúsico, a música não faz sentido. Para o portador desse distúrbio, não há diferenças entre a pegada virtuose de Yngwie Malmsteen e os sons travados de quem acaba de aprender a tocar a primeira nota no violão.

      Tem cura?

      Um dos casos de Amusia mais conhecido é o do argentino-cubano Ernesto Che Guevara. Por mais que tivesse habilidades para ser jornalista, escritor, médico, guerrilheiro e político, Che não tinha a menor intimidade com a música. Segundo a neurocientista Isabelle Peretz, que também é professora do Departamento de Psicologia da Universidade de Montreal, o revolucionário não sabia “distinguir qualquer forma de música, mesmo depois de ter aulas de salsa”.

      Apesar de não aparentar, Che não sabia diferenciar uma cantiga infantil de um rock dos Stones (Foto/Internet)

      Apesar de ser uma condição conhecida há décadas, a Amusia passou a ter relevância há muito pouco tempo. Conduzido pela Dra. Isabelle Peretz, o primeiro estudo científico sobre esse distúrbio data de 2002. Uma das primeiras pacientes de Pertez foi uma idosa, de 76 anos, identificada pelas iniciais D. L., que nasceu em uma família de instrumentistas, mas nunca soube como música soa. Desde a infância ela teve que encarar a embaraçosa situação de não saber a diferença entre o hino nacional e o clássico “Parabéns Pra Você”. No livro “Alucinações musicais: Relatos sobre a música e o cérebro”, Oliver Sacks contou com o depoimento da senhora L.:

      Imagine que você está na cozinha e alguém joga todos os pratos e panelas no chão. É isso que eu ouço

      Ainda não há um método de tratamento para quem sofre Amusia. A medicina oferece procedimentos terapêuticos, como a aplicação de técnicas de diferenciação de sons, mas os resultados não apresentam sucesso pleno. Por horas, a ciência está firme na busca das soluções que vão trazer a beleza da música para o obscuro mundo dos amúsicos.

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