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      Lucas Silveira fala sobre carreira, rock nacional e mais

      25 de fevereiro de 2019 13:15 Por Gustavo Morais

      Cearense de berço, mas gaúcho por adoção e atualmente radicado em São Paulo, Lucas Silveira é um cara do mundo. Além de guitarrista e vocalista da banda Fresno, Lucas também desponta como um dos produtores musicais mais promissores do pop rock brasileiro atual.

      Lucas Silveira, vocalista da Fresno

      Lucas Silveira investe talento e dedicação na carreira de produtor (Foto/Rafael Kent)

      Em conversa com o Cifra Club News [CCN], Lucas falou sobre carreira, produções musicais e perspectivas sobre o rock nacional. Ficou curioso? Então se liga na qualidade do bate papo.

      CCN: Jimmy saiu do Matanza, O Rappa chegou ao fim e a Cachorro Grande caminha para um hiato. Na sua opinião, qual impacto essas “ausências” podem causar no pop rock brasileiro?

      Lucas: Pra cada banda ou artista que termina, eu tenho dois ou três que conheci na semana passada e que renovaram minha fé. Além disso, o espaço da música é elástico: sempre há mais a ser conquistado. Nunca se ouviu tanta música, e nunca se teve tanto acesso a ela. Muitas bandas talvez fiquem desmotivadas, pois o novo momento do mercado e como o público se relaciona com música hoje em dia não se encaixa em todas as propostas artísticas de dez anos atrás. Hoje a gente trabalha de forma mais braçal e a familiaridade com redes sociais e estrutura das plataformas é muito importante, e nem todos estão dispostos a se atualizar. Também tem o fato de que as pessoas mudam, e música é uma coisa que entra muito cedo na nossa vida, e muita gente quer arriscar outros caminhos quando vê que está a uma vida inteira fazendo a mesma coisa. Muitos querem sentir o ar do outro lado.

      Lucas Silveira, músico e produtor

      Lucas Silveira investe talento e dedicação na carreira de produtor (Reprodução/Instagram)

      CCN: Com o mínimo de equipamento, qualquer pessoa consegue gravar, distribuir e até fazer uma música ser sucesso. Com tanta “facilidade” assim, quais diferenciais um produtor musical precisa ter para continuar sendo importante para um artista?

      Lucas: Sem dúvidas que o processo está ao alcance de mais gente hoje em dia, e é somente por isso que eu sou um produtor hoje. Sou filho direto da facilidade de encontrar tutoriais e soluções na Internet, e tudo que aprendi foi tirado dessa egrégora de conhecimento acumulado da humanidade. A inteligência está em como e o que buscar nela. Não acho que o produtor seja necessário nos primeiros passos de uma carreira artística, pois é quando a identidade musical da pessoa está tomando forma – então é legal que seja um processo puro. Eu gosto de trabalhar com quem já tem algum material, pra que dali eu possa extrapolar dentro de um universo de referências. Mas é legal que a pessoa já tenha uma maturidade musical a fim de fazer com que o processo seja uma troca e não uma imposição. Ao meu ver o produtor entra pra somar, e nem todos os artistas precisam de um, mas é uma arma boa quando se quer um olhar de fora e quando se tem um objetivo claro em mente.

      Banda Fresno

      Lucas Silveira e seus companheiros resistem aos testes do tempo (Reprodução/Facebook)

      CCN: Quais as grandes lições tiradas com a produção do novo disco do Capital Inicial?

      Lucas: Foi um dos trabalhos mais fáceis que já tive com bandas. A generosidade do Dinho e a abertura que eu tive dentro da banda para opinar, sugerir e até participar em algumas composições é fruto de uma credibilidade que eu cultivei ali dentro, um membro por vez. Eu conhecia bastante do trabalho deles e tinha uma visão bem clara de onde seria legal chegarmos musicalmente. Eles precisavam de um disco moderno, mas não modernoso, que espelhasse a experiência deles em cunhar refrões pop sobre bases rock e que desse a isso a melhor forma possível. A principal lição é na verdade a confirmação de que todo produtor deve ter um lado “psicólogo” e “manager de situações tensas” e que isso muitas vezes vai ser mais importante que o insight musical. E isso só se obtém quando se tem segurança e confiança no objetivo comum.

      Dê o play e confira uma dose do trabalho de Lucas com os caras do Capital:

      CCN: A proximidade do Capital com bandas que são algumas gerações mais novas pode ser o precedente que faltava para o pop rock nacional ser menos sectário?

      Lucas: Acredito que com as bandas dando o exemplo, a barreira se quebra com mais facilidade. Mas ainda precisa de muita coisa assim para que o ranço geracional se desfaça. Vi comentários de gente achando ‘pelo em ovo’ na minha produção do disco deles claramente por não aceitarem meu nome ali, ligado aos ídolos deles. Mas é aí que vem a segurança que é necessária para não acreditarmos nessas ideias erradas de meia dúzia. A grande maioria só quer saber de música boa, e é pra esses que eu jogo.

      Lucas Silveira e Dinho Ouro Preto trabalhando em estúdio

      Encontro de gerações marca inovação no rock nacional (Reprodução/Instagram)

      CCN: É mais fácil trabalhar com uma banda veterana ou com quem tá começando agora?

      Lucas: São desafios diferentes, e variam muito de banda pra banda. O principal que eu sinto é que a banda precisa estar ‘bem resolvida’ para que eu possa entrar e ajudar. Do contrário, eu só estaria extrapolando uma ideia que lá na frente vai se desfazer. É importante que todos os membros de uma banda entendam o seu papel na canção e que muitas vezes o seu papel é fazer muito pouco ou nada. A única coisa importante num estúdio é o que sai lá de dentro, e nada mais. O resto é vaidade e medo. E vaidade e medo não costumam resultar em música boa.

      Dê o play e confira uma dose do trabalho de Lucas com os caras do Capital:

      CCN: Falando um pouquinho sobre a Fresno… A banda completa 20 anos em 2019! Qual o segredo de tanta longevidade?

      Lucas: Segredo não tem. Todo mundo sabe que o que faz um casamento durar é verdade no olhar, resolver as coisas na hora, falar, não remoer, discutir sempre os objetivos a curto e longo prazo. Todo mundo sempre na mesma página. Confiança mútua, admiração mútua, tudo isso lubrifica a máquina e faz ela durar.

      Fresno posa para divulgação

      Fresno completa duas décadas de estrada (Foto/Divulgação)

      CCN: E quais são os planos da banda a curto prazo? Você pode dar algum spoiler?

      Lucas: Temos um disco pronto, que estamos polindo e deixando “no jeito”, já pensando em conceito de arte, planejando lançamento. Será lançado com uma tour nacional que esperamos cobrir todas as regiões do Brasil. O disco sai no primeiro semestre. Enquanto ele não vem, estamos trabalhando um álbum ao vivo e um DVD (que é digital, tá todo no YouTube) que foi gravado durante a tour “NaturezaCaos”. Levamos muita fé no disco novo. Foi feito de maneira muito leve, mesmo falando de temas bem pesados, no macro e no microcosmo. Estamos apostando bem alto e sinto que vai figurar entre os melhores que já fizemos – e olha que eu gosto quase igualmente de todos.

      Confira uma amostra do DVD digital da Fresno:

      Momento curiosidade: você aí, amigo leitor, sabia que a Fresno é uma das responsáveis pelo surgimento de um hino não oficial brasileiro? Conheça essa história aqui!