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      Verdades e mentiras sobre técnicas de como melhorar a voz pra cantar

      10 de abril de 2019 8:40 Por Gustavo Morais

      A voz é patrimônio imaterial do vocalista

      O cantor vive cercado de mitos e verdades sobre como melhorar a voz (Foto/Pexels)

      Ela é uma forma de identidade, é fundamental para a comunicação e também é um instrumento musical natural. Ela encanta, seduz e desperta os mais variados tipos de emoções. Estamos falando da voz, um dos atributos mais fantásticos do ser humano.

      Se você canta ou usa a voz para qualquer outro tipo de atividade, como dublagem ou locução, certamente já ouviu a sabedoria popular indicar vários mecanismos que podem melhorar o desempenho vocal. A grande verdade, no entanto, é que nem todas as crenças do senso comum são verdades.

      Leia também:

      Afinal de contas, bebidas geladas são realmente inimigas da voz? Qualquer atividade física é boa para melhorar o desempenho dos vocalistas?

      Para responder as perguntas acima, conversamos com alguns profissionais da voz. O conteúdo deste post foi escrito com o suporte das Doutoras Raquel Barbosa e Janaína Pimenta, fonoaudiólogas e coaches vocais; de Max Dolabella, cantor, psicólogo e professor de expressão vocal; de Anete Santalúcia, cantora e professora de técnica vocal; e de Natália Sandim, cantora e instrutora de voz do Cifra Club.

      Neste post, você vai descobrir o que é mito e o que é verdade a respeito das técnicas para melhorar a voz para cantar. Vamos lá?

      O senso comum e a boa voz

      No artigo “‘Verdades’ e ‘Realidades’ em Voz: um re-olhar da ciência sobre o senso comum”, gentilmente cedido para este post, a coaching vocal Janaína Pimenta descreve uma série de procedimentos que, teoricamente, dariam um trato especial na voz.

      Segundo ela, “suco de caranguejo, cérebro de coruja, cinzas de andorinha queimada, linimento de centopeia eram alguns dos remédios folclóricos da antiguidade para os distúrbios da garganta”. Voltando alguns séculos na linha do tempo, de acordo com o texto de Janaína, observa-se que os métodos eram relativamente parecidos com os que o senso comum de nossos tempos indicam:

      O povo hindu – 700 a.C. – usava gargarejo com vinagre, mel, óleos, suco de frutas e urina de vaca sagrada. Entre as plantas medicinais, estavam a couve, o alho e a urtiga, como as indicações comuns para os sintomas de rouquidão.

      Os antigos apostavam em usos de medicina alternativa

      No fim das contas, as receitas caseiras não melhoram o desempenho vocal (Foto/Pexels)

      A coaching vocal também relembra que “tomar chá de alho, mel, gargarejar com vinagre e sal, rezar para Nossa Senhora da Cabeça e benzer o pescoço no dia de São Brás são outras das inúmeras práticas indicadas para os males vocais”.

      Com a evolução natural das coisas, os conselhos milagrosos da medicina caseira deram lugar aos avanços científicos. “A voz deixou de ser apenas um dom sujeito a variações do humor divino para ser o resultado de de um processo anatomofisiológico do corpo humano, passível de explicação lógica”, explica Janaína.

      Observa-se que por mais que tenham boas intenções, as crenças populares só alimentam mitos acerca dos mitos e verdades sobre técnicas para melhorar a voz para cantar. Sendo assim, procure evitar as receitas do senso comum e busque a orientação profissional realmente qualificada para te ajudar na preservação e no aprimoramento de seu aparelho vocal.

      Os grandes inimigos da voz

      De forma unânime, todos os especialistas concordam que parte dos grandes inimigos da voz pode ser encontrada na famigerada trinca formada por bebidas alcoólicas, fumo e conversas em alto volume.

      Tabaco e bebida alcoólica com gelo, uma combinação perigosa

      Cigarro e whisk com gelo são inimigos do profissional da voz (Foto/Pexels)

      O álcool resseca a mucosa laríngea, tem efeito anestésico e pode trazer uma falsa sensação de melhora na região de faringe. Uma vez que diminui a sensibilidade, você sem perceber comete abusos vocais. Segundo Anete, muitos músicos usam o subterfúgio de “dar uns golinhos num conhaque ou similar para esquentar a voz”. Ainda que pequeno, o goles na bebida alcoólica é uma solução fácil, mas de consequências difíceis.

      A priori funciona, porque vai esquentar e ampliar como uma dilatação poderosa. O problema que logo na sequência, o álcool vai ressecando as pregas vocais e demais musculaturas, necessitando de água, que é u poderoso hidratante, mas não adstringente

      D alto de seus mais de 40 anos de experiência como profissional da voz, Max Dolabella também alerta para os perigos do álcool na vida do cantor. Segundo ele, o relaxamento que a bebida provoca pode causa falas percepções. “Para os mais tímidos as bebidas alcoólicas podem até ajudar a se descontrair e a melhorar a performance, daí a ilusão de que melhoram a voz. Eu não recomendo, pois o limite entre o efeito de descontração e o de descontrole é muito traiçoeiro”, disse.

      Bebida alcoólica não combina com profissional da voz

      Consumir bebida alcoólica antes de cantar é um crime contra a própria voz (Foto/Pexels)

      De maneira didática, Dra. Raquel explica como um grito pode agredir as pregas vocais. ”A velocidade do ar que passa pelas pregas vocais pode atingir 80km/h. Isso é um hiper impacto para as pregas vocais”, disse. Ela ainda acrescenta que gritar e saber projetar a voz tem muita diferença e requer treinamento justificando o grito de narradores e atores, ou seja é possível com técnica sem desgastar a voz”.

      O grito é um péssimo hábito para um profissional da voz

      As competições de voz são 100% prejudiciais (Foto/freepik)

      Por sua vez, o cigarro é ainda mais prejudicial. Além de ressecar a mucosa, essa substância resseca o trato vocal. Antes de chegar até o os pulmões, a fumaça passa pelas pregas vocais e agride todo o trato respiratório. As consequência do passeio que a fumaça faz , isso pode ressecar, causar um edema que faz a voz mais agravada, irritação, aparecimento de tosse e pigarro em decorrência do aumento de secreção, além de ser altamente nocivo à saúde.

      Portanto, se você quer ter o melhor rendimento vocal possível, tome para si as três notas mentais abaixo:

      • Não fumar
      • Evitar bebidas alcoólicas antes de cantar
      • Não fazer competição de voz

      A seguir, vamos mergulhar um pouco mais nos fundamentos que vão te ajudar a ter um melhor desempenho vocal.

      Preparação física para cantar

      Cantar é muito mais do que abrir a boca e disparar palavras. Trata-se de uma atividade que envolve músculos de todas as partes do corpo. Por isso, mais do que nunca, é importante estar em dia com os exercício físicos

      Mas será que qualquer exercício faz bem para a voz? Segundo a Dra. Raquel, nem tudo que é esporte ou ginástica fazem bem para um cantor. “Mesmo sabendo que exercícios físicos no geral fazem bem à saúde, devemos ficar atentos e espertos quando se trata de profissionais da voz”, disse.

      Dra. Raquel Barbosa, fonoaudióloga

      Dra. Raquel Barbosa recomenda exercícios físicos de baixo impacto (Foto/Arquivo Pessoal)

      Segundo a fonoaudiologia, “alguns exercícios podem gerar mais tensão na região laríngea ou na região cervical, por exemplo, que são regiões que precisam estar mais relaxadas, mais livre para produzir a voz. Para ela, “os exercícios de alto impacto, como boxe e as lutas em geral, a musculação, o tênis, e esses que envolvem muito os membros superiores, são modalidades contra-indicadas para profissionais da voz”. Sendo assim, o ideal para o vocalista são exercícios de baixo impacto, como a caminhada, o pilates ou a natação.

      Ainda sobre esportes, a Dra. Raquel recomenda que é bom evitar de “falar e fazer exercício físico ao mesmo tempo, pois quando fazemos força a prega vocal fecha, numa função esfincteriana e se associarmos a isso a fonação isso sobrecarregará a mesma causando tensão, portanto abuso vocal”.

      E já que o cantar depende de movimentos musculares, é importante que o profissional da voz faça alguns alongamentos. No vídeo abaixo, Natália Sandim ensina a prática desse fundamento tão importante para a preparação física de um cantor.

      Voz e as questões de temperatura

      A temperatura é outro fator determinante para o bom desempenho da voz. O ar condicionado muito baixo, por exemplo, pode ser provocar ressecamento nas vias aéreas e ser fatal. Max Dolabella explica que “as pregas vocais se contraem com o frio ficando menos flexíveis e menos propícias para o canto”.

      A Dra. Raquel concorda com o discurso de Max Dolabella. Segundo ela, o ideal é evitar os choques térmicos, pois, no geral, mudanças bruscas de temperatura são prejudiciais para a voz.

      Nos casos de bebidas geladas ou muito quentes, há um choque térmico no organismo, o que pode causar danos à saúde vocal. Porém, tudo uma questão de sensibilidade que varia de indivíduo para indivíduo e que pode envolver um processo de dessensibilização. Pelo sim e pelo não, o ideal é que quando puser algo gelado na boca, fique com isso na boca um tempo para evitar esse choque.

      Por outro lado, Dolabella joga por terra o mito de que o profissional da voz deve viver com medo de saborear alimentos e líquidos gelados. Segundo ele, o cuidado com coisas frias “não significa que o cantor não pode mais tomar a sua cerveja ou o seu sorvete. Só não deve ingerir gelados durante, ou antes, do canto”. Ainda segundo o psicólogo e professor de expressão vocal, ”o gelado pode até ser útil para recuperar a voz, mas depois da atuação”.

      Cafeína prejudica o bom desempenho vocal

      O cantor deve evitar a deliciosidade do café no dia de um show (Foto/Pexels)

      A cafeína encontrada no café quente ou no refrigerante gelado também pode prejudicar o bom uso da voz. Esse elemento resseca a mucosa e pode também estimular o refluxo. Desta forma, alerta Dra. Raquel, “é bom evitar esses elementos antes de apresentações e no dia a dia quando for tomar o café evitar tomar puro, afim de evitar refluxo”.

      Perguntas que não querem calar

      Se você chegou até aqui, certamente já aprendeu sobre os mitos e verdades em torno das técnicas para melhorar a voz. A seguir, você terá as respostas sobre alguns temas que também te ajudarão a entender e a aprimorar o seu potencial vocal.

      Por que minha voz fica diferente nas gravações?

      Max Dobalela: quando usamos a voz, a ouvimos, como os outros, ressoando no ambiente. Mas só quem fala, escuta a própria voz dentro do seu corpo. O gravador capta a voz apenas no ambiente, portanto sem o som que o falante ouve internamente. A sensação geral é: o som das vozes dos outros fica bem parecido, mas o som da minha fica muito diferente

      Por questões técnicas, a voz gravada soa diferente

      Detalhes técnicos causam diferenças ao ouvirmos a nossa própria voz gravada (Foto/Pexels)

      Só pode cantar quem já fez aula de canto?

      Max: é claro que, como em qualquer área, as aulas vão ajudar muito e em alguns casos serão imprescindíveis. Os professores, com as melhores intenções, querem ver os seus alunos dominando e aplicando as técnicas por ele propostas. Acontece que nem sempre a melhor expressão artística coincide com a melhor técnica. O público, em sua maioria, não está se importando com a técnica. Quer sentir a música, o canto e se emocionar. Aquele cantor muito focado na técnica muitas vezes não traz a emoção na sua voz. Faz uma apresentação perfeita tecnicamente, o público aplaude reconhecendo sua extrema habilidade, mas não vai fazer questão de escutá-lo novamente.

      Falar muito pode fazer mal para voz?

      Dra. Raquel: sim, pois quando a gente submete o aparelho fonador a períodos prolongados de emissão continuada, estamos fazendo um esforço excessivo e estamos falando dos músculos. Se falamos o tempo todo, não damos descanso a esses músculos. Então, nos casos em que é preciso usar a voz por um período prolongado, há a necessidade de se preparar para dar umas pausas, por exemplo, se vai cantar ou falar por duas horas, dê um tempo pra descansar. Mas descansa mesmo! Significa parar de falar mesmo durante essa pausa.

      Devo sussurrar quando eu estiver rouco e sem voz?

      Dra. Raquel:  não. O sussurro em excesso gera uma tensão na laringe na tentativa de bloquear o som natural. O melhor mesmo é repouso vocal, parar de falar mesmo, beber muita água, falar mais baixo.

      Mãos femininas segurando remédio e um como d'água

      Evite o uso de qualquer medicação sem prescrição médica (Foto/Pexels)

      A rouquidão melhora sozinha? 

      Dra. Raquel:  não! Se você ficar rouco por mais de 14 dias, procure a orientação profissional de um otorrinolaringologista ou de um fonoaudiólogo.

      Posso me automedicar quando estiver rouco?

      Dra. Raquel:  não, pois cada medicamento tem uma ação e pode interferir de forma direta ou indireta na voz, além do risco de consumir uma substância que poderá não ser eficaz ou ainda por em risco sua saúde.
      Anete: eu enquanto professora de música, especializada em canto, tenho por missão encaminhar a um fonoaudiólogo ou a um otorrinolaringologista qualquer sinal de disfunção ou dificuldade em propagar a voz de forma coesa e clara.

      Dê o play e confira um vídeo completo com hábitos que prejudicam a voz:

      E para ficar ainda mais por dentro das técnicas para melhorar o desempenho vocal, amigo leitor, você precisa conferir algumas dicas preciosas para proteger a sua voz. Ah, e não se esqueça de compartilhar o link deste post com a galera das suas redes sociais e do WhatsApp. Afinal de contas, nunca é demais dar um help para que nossos amigos profissionais da voz melhorem seus desempenhos ;)