Notificações Amigos pendentes

      Cifra Club News

      Titãs resgatam fúria criativa e lançam disco que o BRock precisava

      23 de maio de 2014 17:48 Por Gustavo Morais

      A banda Titãs lançou, na última semana, o álbum “Nheengatu”. Produzido por Rafael Ramos, o disco marca a estreia do agora quarteto na gravadora Som Livre.

      Desprovido de baladas, que garantem rotatividade nas rádios, nos programas de TV e nas trilhas de novelas, o 18º trabalho da carreira da banda aposta em temas encorpados e viscerais. Com ecos do canônico “Cabeça Dinossauro”, de 1986, e do material que o grupo lançou no começo dos anos 90, “Nheengatu” apresenta 14 faixas construídas com guitarras vigorosas e a voracidade clássica do bom e velho Titãs que o BRock tanto respeita. Em uma era regida pela preocupação de manter a boa reputação nas redes sociais, o conjunto entrega um álbum com letras ácidas, desafiadores e que abordam temas como política, sociedade e comportamento.

      Na furiosa “Fardado”, os Titãs tratam da questão da repressão policial. Porém, ao invés de distribuir ofensas gratuitas, a banda lança mão de um discurso que sugere aos homens fardados o uso da lucidez como ferramenta de trabalho. Em “Mensageiro da Desgraça”, Paulo Miklos incorpora a ótica de uma verdadeira vítima da sociedade e canta sobre uma realidade que os políticos e os mais bem afortunados parecem desconhecer. Versos como “Cansei da fome, do crack/Da miséria e da cachaça/Cansei de ser humilhado/Sou o mensageiro da desgraça”, inevitavelmente, comprovam a existência de um Brasil bem diferente do que é pintado nas propagandas.

      A sagaz “Quem São Os Animais” é um crítico exame acerca de todas as formas de preconceito. Com versos como “Te julgam pela cor da pele, pela roupa que veste/Te chamam de viado, te chamam de macaco/Quem são os animais?”, a banda definitivamente joga uma pá de cal na demagogia que há por traz de discursos como o famigerado “#somostodosmacacos” e dá uma lição de como deve ser a indignação para com racismo, homofobia, etc.

      Em “Pedofilia”, a banda comete uma das canções mais densas do rock nacional. É preciso ter muito bom senso para não condenar o grupo por construir uma letra que transita pelos discursos da vítima e do predador. Já em “Flores Pra Ela”, o quarteto denuncia a questão do machismo e da violência contra a mulher.

      O disco derrapa apenas no momento em que a banda dá uma pausa no lado autoral e faz um cover de “Canalha”, uma das melhores canções do “maldito” Walter Franco. Apesar de afinado, o vocal de Branco Mello não dispõe da fúria necessária para traduzir o desespero que a letra pede. O impecável arranjo de guitarra proposto por Tony Belloto, no entanto, compensa a audição da faixa.

      Por fim e não menos importante: se há um gigante que realmente acordou no Brasil, esse gigante é na verdade um quarteto… um quarteto Titã! Se em alguns trabalhos anteriores a banda padeceu da falta de inspiração, ”Nheengatu” representa a cura. É o antídoto contra a monotonia que insiste em se instalar no pop rock nacional há alguns anos.