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      Protesto panfletário do Capital Inicial não convence em novo EP

      8 de agosto de 2014 14:30 Por Gustavo Morais

      A banda Capital Inicial lançou, no final do mês de julho, o EP “Viva a Revolução”. Em seu 14º trabalho de estúdio, o quarteto reencontra o lendário produtor Liminha, responsável pela produção do compacto de estreia do Capin (apelido que o grupo tem desde os tempos de Brasília), “Descendo o Rio Nilo/Leve Desespero“, lançado em 1984. Contudo, a nova parceria do Capital com uma das figuras mais geniais do rock nacional rendeu um disco que soa sem peso, perdido e enfadonho.

      Com seis músicas inéditas, sendo que a faixa título figura por duas vezes no disco, as principais novidades do EP são as colaborações com o músico Thiago Castanho, ex-guitarrista do Charlie Brown Jr., e com a turma do ConeCrewDiretoria. Além de participar da composição do single “Melhor do Que Ontem”, Thiago Castanho toca violão e faz backing vocals em “Coração Vazio”. Por sua vez, o CCD assina o rap em uma das versões da música “Viva a Revolução”.

      No que diz respeito às letras, o EP é um festival de frases cheias de efeito, porém, desprovidas de sentido. Do princípio ao fim, o trabalho apresenta versos rasos e ocos como, por exemplo, “Somos pobres mortais/Como notas amassadas de 3 reais“, da música “Bom Dia Mundo Cruel”; ou “Seu silêncio não me deixa dormir/Diga alguma coisa pra me acordar” e “A violência na televisão explode e me tira do ar”, da faixa “Tarde Demais”. Por sua vez e escolhida como primeiro single do disco, a canção “Melhor do Que Ontem” é um amontoado de versos superficiais como “Eu esqueço, eu me movo, eu me levanto e vou de novo” e/ou “Eu me vejo no espelho e olho por olhar/E volto a respirar”. 

      Teoricamente inspirada nas manifestações de 2013, a banda falha ao colocar em evidência o seu lado engajado. O panfletarismo disfarçado de discurso revolucionário que dá o tom da faixa título é a prova cabal de que o quarteto falhou bisonhamente ao propor músicas sobre posicionamento ideológico, atitude e aspirações por mudanças. Em um passado distante, o Capin deu ao pop rock nacional músicas realmente críticas e ácidas como “Autoridades” e “Mickey Mouse em Moscou“. Contudo, em “Viva a Revolução”, o protesto mostrado pela banda tem apenas um pouco mais de credibilidade do que a vexatória enxurrada de “cara” que Dinho Ouro Preto declamou em sua politização no último Rock in Rio.

      Com um riff repetitivo e uma combinação de acordes pra lá de manjada, “Não Tenho Nome” é uma das piores músicas da história do Capital Inicial. Esta canção está mais para uma ode aos que discordam de tudo e de todos apenas pelo prazer de se assumir como “do contra”, do que para uma música que possa representar um posicionamento ideológico. Parêntese: o “tarataratarau, taratarau, taratarau, TARAU” do final chega a ser constrangedor.

      O vocalista Dinho Ouro Preto parece ter tomado gosto por técnicas vocais como Vibrato e Vocal Fry. Em “Coração Vazio”, por exemplo, Dinho despeja uma série de vibratos exagerados em notas de repouso. Na prática, a música não poupa nossos ouvidos de “agOoOoOoOora“, “esperAaAaAaAaAr“, “hOoOra“, “estraAada” e “vêÊêÊr“. Já em “Viva a Revolução”, a técnica vocal de drive chamada Vocal Fry é associada a uma porção de filtros de áudio, que criam um efeito gutural, estridente e enjoativo. Dica: cuidado com o desejo de parar de ouvir o disco após o verso “E lágrimas nos olhos”.

      Por fim e não menos importante: a sólida base de fãs do Capital Inicial garante o sucesso de “Viva a Revolução”, que é um trabalho aquém das competências da banda. Logo, apesar de romper uma sequência de dois bons discos, o Capital colherá bons frutos com o EP. Todavia, é inevitável deixar de pensar que os tons panfletários são funestos para uma banda com mais de 30 anos de estrada. Pela importância que tem no BRock e pela entrega de seus músicos no palco, o Capin merece um voto de confiança. Que venha o próximo disco…