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      Nenhum de Nós mostra como resistir ao teste do tempo em novo CD

      14 de julho de 2015 13:33 Por Gustavo Morais

      A banda Nenhum de Nós lançou, em meados de junho, o disco “Sempre é Hoje”. Gravado no inverno do ano passado em Caxias do Sul (RS), o 16º trabalho da carreira do quinteto apresenta 10 faixas inéditas. O nome do álbum é uma referência ao disco “Siempre es Hoy”, empreitada solo do falecido músico argentino Gustavo Cerati, ex-vocalista da banda Soda Stereo, homenageado pelo quinteto gaúcho.

      A produção do disco é assinada por JR Tolstoi, um dos produtores contemporâneos mais bem conceituados. O olhar externo e atualizado de Tolstoi certamente é um dos ingredientes que faz com que a sonoridade do trabalho mantenha o NDN no caminho de jamais oferecer mais do mesmo aos fãs. Para o bem do rock nacional, “Sempre é Hoje” mostra uma banda veterana que sabe dialogar com o presente e ao mesmo tempo não renega as influências agregadas ao longo de quase três décadas de estrada.

      Além de abrir o disco, a faixa “Milagare” é o primeiro single do CD. Escrita pelas mãos e mentes do vocalista Thedy Corrêa e dos guitarristas Carlos Stein e Veco Marques, a letra da faixa reflete sobre a questão da apatia e do descaso que habita no atual modus operandi da criação da música brasileira. Com uma rápida consulta na lista das mais tocadas, nós percebemos que uma boa parte das canções tem sido construídas a partir de uma mesma fórmula e segue a desnecessária cartilha de ser uma variação do mesmo tema. O slide magistralmente deslizado por Stein faz com que “Milagre” ofereça uma dose a mais de alento aos ouvidos.

      A faixa “Total Atenção” é outro momento deveras interessante do disco. A letra discorre sobre a dificuldade de conseguir dar e ter atenção nos tempos de WhatsApp, redes social e outros meios de distrações digitais. A música, contudo, pode funcionar como um lembrete de que ainda existe a possibilidade de presença física e real em meio a tanto grupo, muita informação, tanta foto, muita coisa e tanto tudo!

      Por mais que remeta a David Bowie, uma das influências mais presentes na trajetória do Nenhum de Nós, a música “Caso Raro” é uma dos tipos de músicas mais incomuns nos discos da banda. Trata-se de um dos pontos mais inspirados do álbum! O groove contagiante conduzido por Estevão Camrago, baixista que toca com o NDN há anos, e pelo baterista Sady Homrich se encaixa como luvas nas sensuais frases e linhas de guitarras propostas por Veco e Stein. E quando tudo parece chegar ao fim, o gaitero João Vicenti brinda o ouvinte com um solo que torna alguns movimentos corporais ainda mais inevitáveis.

      O trabalho de estreia de Thedy no universo literário, o livro de poesia “Bruto”, aparece em dois dos melhores momentos do álbum: as músicas “Foi Amor” e “Estrela do Oriente”. Por coincidência, ou não, em ambos os poemas musicalizados a banda conta com belos arranjos de cordas executados pelo Quinteto da Paraíba. “Foi Amor” marca uma parceria do NDN com a cantora Roberta Campos, que divide os vocais e ainda assina a musicalização do texto. A faixa narra a história de um amor que pode ter durado até o momento em o casal descobriu que apesar de estar feliz, não estava apaixonado o suficiente. No que diz respeito ao arranjo, a orquestrada “Estrela do Oriente” estabelece uma perfeita conexão entre as cordas e o timbre baixo profundo do vocalista.

      Por fim e não menos importante: no que diz respeito aos arranjos e letras, “Sempre é Hoje” é um disco moderno, coeso e resistirá ao teste do tempo. Com este trabalho, o Nenhum de Nós mostra que tem consciência de que a segurança conquistada com o passar dos anos de carreira não é o passaporte para uma banda migrar para a zona de conforto e produzir material no piloto automático. Por estas e outras, o NDN é uma reserva moral na música nacional e um ponto de exclamação no labirinto de reticências que, de quando em vez, assombra o rock nacional.